Especialista diz que não há obrigação de enviar cartões e dá dicas para quem quer parar

Japão: tradição dos cartões de Ano Novo perde força com ascensão das redes sociais

Pesquisas revelam que mais de 80% da população reduziu ou abandonou a prática; especialista tira dúvidas sobre etiqueta

A tradição secular de enviar cartões de Ano Novo, os nengajō, está em declínio no Japão. O crescimento das redes sociais, o aumento das tarifas postais e o tempo despendido na preparação são os principais motivos apontados para a mudança de hábitos. Mas é aceitável abandonar a prática de repente? E como se deve reagir ao receber um cartão? Em entrevista ao Mainichi Shimbun, uma especialista em cultura postal garante que não há obrigação.

Segundo pesquisa da empresa Futaba, de Nagoya, 80% das pessoas que pararam de enviar os cartões o fizeram nos últimos cinco anos, indicando uma tendência recente. O motivo mais citado foi a sensação de que “redes sociais como o Line, e-mail e mensagens são suficientes” (77 entrevistados), seguido por “preparar os cartões de Ano Novo se tornou um incômodo” (71 entrevistados).

Uma pesquisa do próprio Mainichi, de dezembro de 2024, reforça o movimento: 41% dos entrevistados não enviam mais cartões, e somados aos que desejam parar (26%) e reduzir o número (18%), mais de 80% manifestam distanciamento da tradição. Apenas 11% querem continuar enviando como antes.

Manutenção dos laços e uma transição gentil

Kazuko Murakami, diretora representante de uma associação de promoção da cultura das cartas, oferece uma perspectiva inesperada: “Não há necessidade de insistir em cartões escritos à mão, que exigem esforço. Temos tantas maneiras fáceis de nos comunicar agora”. No entanto, ela pede cautela na decisão de parar. Muitos anunciam a interrupção nos próprios cartões, mas Murakami ressalta: “Não se esqueça de que o objetivo principal dos cartões de Ano Novo é dar os cumprimentos no início do ano”.

Ela sugere escrever as atualizações costumeiras e as resoluções de Ano Novo, usando o espaço restante para informar sobre a mudança no método de comunicação. Incluir um QR code para uma conta do Line também é recomendado, sinalizando que “não se trata de cortar laços”. Existem até cartões-postais e adesivos de Ano Novo com mensagens pré-impressas anunciando o fim do envio, o que pode facilitar a comunicação.

“Não se sinta pressionado”, aconselha especialista

Para quem decide parar, mas ainda recebe cartões, Murakami é enfática: “Não se sinta pressionado a responder ou pensar ‘tenho que retribuir'”. Se achar que seria rude não enviar uma resposta, pode fazê-lo, mas sem forçar a barra. “Se alguém está enviando cartões por prazer, apenas aceite com gratidão. Essa pessoa está feliz em enviá-los”, completa.

A especialista também alerta quem continua enviando para não esperar uma resposta em papel: “Nos dias de hoje, só a intenção de enviar cartões de Ano Novo já é notável. Costumava ser a norma, mas agora é algo que as pessoas escolhem fazer”.

Sinais de um possível renascimento?

Apesar da tendência de afastamento, há indícios de um reavivamento do interesse. Na pesquisa da Futaba, 40,5% disseram que gostariam de enviar cartões “se a oportunidade surgisse”, enquanto 10% planejam enviar no próximo ano. Juntos, os resultados sugerem que cerca de metade dos entrevistados considera retomar a tradição. Muitos expressaram interesse em retomar a troca de cartões com amigos particularmente próximos.

Murakami reflete que, em uma época de comunicação instantânea, há valor nas cartas que levam tempo para chegar pelo correio. “Particularmente durante as férias de Ano Novo, pode valer a pena se desconectar da internet e experimentar a vida de maneira diferente”, conclui.

Acompanhe mais atualizações no Japão em Pauta.

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *