Pesquisa revela arrependimento após trocar cartões físicos por mensagens digitais

Nengajō-jimai: a saudade dos cartões de Ano Novo no Japão digital

Pesquisas mostram que abandonar a tradição dos nengajō, movido pela conveniência, tem deixado um vazio emocional e levado a um retorno mais seletivo

Uma tradição secular japonesa está passando por uma profunda transformação. O envio dos nengajō, os cartões postais de Ano Novo meticulosamente preparados para chegarem no dia 1º de janeiro, está sendo abandonado por uma parcela crescente da população em um movimento conhecido como “nengajō-jimai” – onde “jimai” significa “encerrar”. No entanto, essa mudança para as saudações digitais, feita em nome da praticidade, tem gerado um sentimento inesperado de arrependimento e saudade da conexão humana que o papel e a tinta proporcionavam.

Pesquisa realizada pela empresa de impressão Futaba com 200 pessoas que pararam de enviar os cartões revela que a maioria se arrepende da decisão. Quase 80% dos entrevistados abandonaram a tradição nos últimos cinco anos, citando a percepção de que mensagens digitais eram “suficientes” e o cansaço de preparar os cartões na correria do fim de ano.

Contudo, após pararem, muitos começaram a sentir falta. Mensagens em aplicativos como o LINE, muitas vezes resumidas a um único sticker ou emoji, foram consideradas impessoais e apressadas. Alguns perceberam que perderam o contato com amigos e parentes distantes, para quem o nengajō era o único ponto de contato anual. O simples ritual de abrir a caixa de correio no Ano Novo e descobrir quem lembrou-se deles também ficou para trás, deixando um vazio emocional onde se esperava alívio.

Essa tendência é confirmada por estudos mais amplos. Uma pesquisa com o público em geral indicou que aproximadamente 62% das pessoas não pretendem enviar nengajō físicos para a chegada de 2026, com a maioria optando por enviar saudações através do LINE ou outras plataformas digitais. No mundo corporativo, a mudança é ainda mais acentuada: uma pesquisa com mais de 6.300 empresas mostrou que 64% delas não enviarão cartões de Ano Novo, a maioria por não ver mais necessidade no gesto, em um claro movimento de eficiência e corte de custos.

O fenômeno é de tal magnitude que afeta até os correios. A Japan Post, prevendo a queda na demanda, reduziu a produção de cartões de Ano Novo para 2026 em cerca de 30%, para aproximadamente 750 milhões de unidades.

Entretanto, o abandono não é total nem irreversível. Outra pesquisa aponta que 56,8% dos entrevistados ainda pretendem enviar nengajō físicos, principalmente para pessoas muito próximas. A motivação para manter a tradição varia desde o simples hábito e a reciprocidade (“porque recebo”) até um genuíno desejo de preservar a cultura e a calorosa sensação de receber uma mensagem tangível.

É justamente essa experiência tangível que os adeptos do “jimai” começaram a valorizar. Mais da metade dos entrevistados pela Futaba afirmou que gostaria de voltar a enviar cartões, ainda que ocasionalmente. A grande diferença está no propósito: a ideia não é retornar às longas listas de obrigação social, mas focar em amigos íntimos, familiares e pessoas que realmente marcaram o ano. A tradição, assim, se reinventa, tornando-se mais pessoal, significativa e menos onerosa.

Nenhum dos pesquisados disse se sentir incomodado ao receber um nengajō. Pelo contrário, a reação foi de felicidade, sentirem-se lembrados e conectados. Para muitos japoneses, mesmo em um mundo digital acelerado, o valor do nengajō como uma pausa anual para refletir sobre os relacionamentos e iniciar o ano com um gesto sincero e material permanece insubstituível.

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