Juros sobem, orçamento recorde é aprovado e rendimento dos títulos do Japão dispara

Japão vive turbulência no mercado de títulos com juros em alta e gastos recorde

Decisão do banco central e aprovação de pacote de estímulos pressionam rendimentos a patamares não vistos há décadas

O mercado financeiro japonês entrou em nova fase de tensão nesta segunda-feira, com o rendimento dos títulos do governo atingindo o nível mais alto deste século. O movimento ocorre após o Banco do Japão elevar sua taxa básica de juros para 0,75% na sexta-feira, o maior patamar desde 1995, e a aprovação de um orçamento suplementar recorde pelo governo da primeira-ministra Sanae Takaichi.

O rendimento do título de referência de 10 anos, conhecido como JGB, superou a marca de 2%, atingindo seu nível mais elevado desde 1999. Os rendimentos dos títulos se movem de forma inversa aos seus preços, e a alta reflete uma venda intensa por parte dos investidores, preocupados com a combinação de política monetária mais restritiva e expansão fiscal agressiva.

A decisão do Banco do Japão, tomada por unanimidade, marca a continuação de um ciclo de aperto monetário iniciado em março de 2024, revertendo uma década de política ultraexpansionista. O governador do banco central, Kazuo Ueda, sinalizou que a era das taxas de juros extremamente baixas no país está chegando ao fim, indicando que futuros aumentos são possíveis se a inflação persistir.

Paralelamente, o Parlamento japonês aprovou um orçamento suplementar de 18,3 trilhões de ienes (cerca de 118 bilhões de dólares) para o ano fiscal de 2025. Este montante visa financiar um novo pacote de estímulo econômico do governo Takaichi, que inclui subsídios para contas de energia e apoio a municípios para amenizar o impacto da alta de preços. A primeira-ministra, que assumiu o cargo em outubro, também anunciou um pacote de reativação econômica no valor de aproximadamente 135 bilhões de dólares.

Essa expansão fiscal ocorre em um momento delicado, já que o Japão possui a maior dívida pública entre as economias avançadas, equivalente a cerca de 250% do seu Produto Interno Bruto (PIB). Apesar de a dívida ser majoritariamente financiada por investidores domésticos, o anúncio de novos gastos em larga escala aumentou as preocupações do mercado com a sustentabilidade das finanças públicas.

No mercado cambial, o iene continuou a se desvalorizar, sendo negociado em torno de 157 unidades por dólar, nível considerado fraco. A desvalorização persiste mesmo com a alta dos juros, em parte devido ao tom considerado cauteloso do Banco do Japão sobre futuros aumentos. As autoridades monetárias demonstraram preocupação com os movimentos rápidos da moeda e alertaram que podem intervir nos mercados para conter flutuações excessivas.

A inflação no Japão permanece um foco central, tendo ficado em 3% no mês de novembro, excluindo os custos voláteis dos alimentos frescos. O índice se mantém acima da meta de 2% do banco central há 44 meses consecutivos, alimentando expectativas de que a normalização monetária deve continuar.

Analistas apontam que as mudanças no Japão têm implicações globais. Como o maior credor líquido do mundo, um aumento nos rendimentos dos títulos domésticos pode reduzir o incentivo para que investidores institucionais japoneses apliquem trilhões de dólares no exterior, um fenômeno conhecido como repatriamento de capital. Isso pode exercer pressão adicional sobre os mercados de dívida de outros países, incluindo os Estados Unidos e nações europeias.

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