Japão dá passo decisivo para retomar a maior usina nuclear do mundo
Após 15 anos do desastre de Fukushima, Kashiwazaki-Kariwa deve reiniciar operações em janeiro com aprovação local
O Japão concluiu o processo formal para retomar as operações da maior usina nuclear do mundo, a Kashiwazaki-Kariwa, localizada na província de Niigata. A assembleia provincial aprovou nesta segunda-feira um voto de confiança no governador Hideyo Hanazumi, que no mês passado já havia manifestado apoio à retomada, concluindo assim a etapa crucial do consentimento local exigida pela legislação japonesa. A Tokyo Electric Power Company (TEPCO), mesma operadora da usina de Fukushima, planeja reiniciar o reator número 6 da usina no próximo dia 20 de janeiro.
A decisão representa um marco significativo no retorno gradual do Japão à energia nuclear, quase 15 anos após o terremoto e tsunami de 2011 que levaram ao desastre de Fukushima, o pior acidente nuclear desde Chernobyl. Naquele ano, o país desativou todos os seus 54 reatores. Desde então, apenas 14 das 33 unidades consideradas operáveis foram religadas, todas em usinas de outras operadoras. Esta será a primeira usina da TEPCO a retomar atividades desde o acidente.
O reinício da Kashiwazaki-Kariwa, que fica a cerca de 220 km a noroeste de Tóquio, está inserido em uma estratégia nacional para reforçar a segurança energética e reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados, que hoje respondem por 60% a 70% da geração de eletricidade do país. O governo da primeira-ministra Sanae Takaichi defende a energia nuclear como forma de conter custos, combater a inflação e cumprir as metas climáticas. O Japão pretende dobrar a participação da nuclear em sua matriz elétrica para 20% até 2040.
Apesar da aprovação política, a decisão não foi unânime e reflete a divisão na sociedade japonesa. Durante a sessão da assembleia, parlamentares opositores argumentaram que a retomada é “prematura” e que “não leva em consideração a vontade dos moradores”. Do lado de fora do prédio, cerca de 300 manifestantes, muitos idosos, protestavam no frio segurando cartazes com os dizeres “Não às armas nucleares” e “Apoiem Fukushima”. Uma pesquisa da prefeitura de outubro mostrou que 60% dos residentes locais não acreditam que as condições para a retomada tenham sido atendidas, e quase 70% expressam preocupação com a TEPCO operando a usina.
A TEPCO tem se esforçado para garantir que as lições de Fukushima foram aprendidas. A empresa prometeu investir 100 bilhões de ienes em Niigata na próxima década e realizou diversas inspeções e melhorias de segurança na usina, incluindo novos muros de contenção contra tsunamis e sistemas de filtragem aprimorados. O porta-voz da empresa, Masakatsu Takata, afirmou que a companhia está “comprometida em nunca repetir um acidente” e em garantir que os moradores de Niigata nunca passem por algo similar. O governador Hanazumi, mesmo apoiando a retomada, reconheceu que este é “um marco, mas não é o fim”, enfatizando que a busca pela segurança dos moradores não tem fim.
Após obter o aval local, a TEPCO deve solicitar a inspeção final da Autoridade de Regulação Nuclear. Se aprovada, a retomada do reator 6, de 1.36 gigawatts, poderá aumentar o fornecimento de energia para a região de Tóquio em aproximadamente 2%. A operação comercial está planejada para começar antes do fim do ano fiscal, em março. A usina de Kashiwazaki-Kariwa tem capacidade total de 8.2 gigawatts, suficiente para abastecer milhões de residências, e a empresa estuda reativar uma segunda unidade por volta de 2030.
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