Triennale de Aichi 2025 explora relação entre humanos e natureza em antigo balneário

Aichi Triennale 2025 conecta arte global com questões ambientais e memória local

Festival internacional no Japão, sob o tema ‘Um Tempo Entre Cinzas e Rosas’, reúne mais de 60 artistas até 30 de novembro

Em um cenário de crescente interesse pelo mercado de arte no Japão, a sexta edição da Aichi Triennale se destaca não apenas pelo sucesso de público, mas por sua proposta curatorial ousada. Intitulada “Um Tempo Entre Cinzas e Rosas”, a Triennale é liderada pela curadora Hoor Al Qasimi, presidente da Sharjah Art Foundation, e reúne mais de 60 artistas e coletivos de 22 países e territórios. O tema é inspirado em um poema do renomado poeta sírio Adonis, escrito após a Guerra dos Seis Dias de 1967, que equilibra a lamentação pela devastação ambiental com um espaço para regeneração e esperança.

O evento, que acontece em múltiplas localizações na província de Aichi até 30 de novembro, tem como foco principal repensar a relação entre os seres humanos e o meio ambiente. Diferente de uma abordagem didática ou abertamente ativista, a curadoria favorece um ritmo atmosférico e geológico, convidando à reflexão profunda sobre como nos relacionamos com a terra, não como um pano de fundo passivo, mas como um agente com sua própria memória e temporalidade.

Um dos destaques mais impactantes da Triennale é a instalação “Unforgettable Residues” (Resíduos Inesquecíveis), da artista conceitual japonesa Rui Sasaki. A obra ocupa um antigo balneário público (sento) na cidade de Seto, que por décadas foi frequentado por trabalhadores da indústria cerâmica local. Em colaboração com residentes, Sasaki coletou plantas da região que representam diferentes eras da evolução da cidade – desde espécies anteriores ao boom da cerâmica até árvores que foram derrubadas para alimentar fornos.

Esses espécimes botânicos foram prensados entre folhas de vidro reciclado, provenientes de antigas casas populares japonesas (kominka) e de estoques descartados de uma fábrica local. Suspensos no espaço escuro do balneário, os painéis emitem um brilho verde fantasmagórico, evocando memórias e experiências que parecem pairar no local como espíritos. A artista, conhecida por explorar o que chama de “intimidade sutil” em espaços familiares e estranhos, utiliza o vidro como um veículo para preservar a relação entre o corpo, a memória e o entorno.

Além da obra de Sasaki, a Triennale apresenta uma gama diversificada de trabalhos que reforçam seu eixo temático. A escultura “Sleeping Serpent” (Serpente Adormecida), da artista queniana Wangechi Mutu, com cerca de 9,5 metros de comprimento, é exibida no Aichi Prefectural Ceramic Museum. A peça, que inclui um autorretrato cerâmico da artista, explora figuras femininas, o ambiente e a mitologia. Outros nomes de destaque incluem Simone Leigh, que apresenta esculturas que investigam a subjetividade da mulher negra, e o duo artístico Basel Abbas e Ruanne Abou-Rahme, que farão a primeira apresentação no Japão.

Com uma programação que privilegia vozes do Sul Global e perspectivas indígenas, a Aichi Triennale 2025 se posiciona como um contraponto significativo no cenário dos grandes eventos de arte internacional. Ao escolher locais não convencionais, como o antigo balneário em Seto, e ao tecer narrativas que conectam o local ao global, o festival demonstra como uma trienal regional pode, de fato, falar ao mundo, promovendo um diálogo urgente sobre nossa casa comum.

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