Deuses e Jogos: Os Rituais que Marcam o Início do Ano Esportivo no Japão
Do beisebol ao breaking, a conexão espiritual com o hatsumōde prepara atletas para a temporada
Para muitos atletas no Japão, o ano esportivo começa muito antes do primeiro apito, e de maneira semelhante ao resto da população: com o hatsumōde, o costume de Ano Novo de visitar um santuário ou templo para oferecer as primeiras preces do ano. O ritual funciona como um aquecimento espiritual, uma forma de atrair sorte inicial e entrar no ritmo das competições. Essa tradição atravessa gerações, de jovens promessas até os níveis de elite do esporte.
Em 2024, atletas olímpicos como o breaker Shigeyuki Nakarai (B-Boy Shigekix), a skatista Momiji Nishiya, a lutadora Akari Fujinami e o escalador Tomoa Narasaki integraram o hatsumōde nos primeiros dias do ano olímpico. Eles visitaram desde templos famosos como o Kawasaki Daishi até pequenos santuários locais para marcar um novo começo. “A vida passa tão rápido que fazer uma pausa no início do ano para juntar as mãos em oração ajuda a redefinir minha mente e coração”, disse Shigekix, que ficou em quarto lugar na estreia do breaking nas Olimpíadas de Paris. Para ele, que tenta levar essa mentalidade para as competições, a dança é um “diálogo que você tem consigo mesmo”, um momento de clareza interior que reflete a busca por equilíbrio no ano novo.
A busca por vitória, saúde e o elo histórico com o divino
Segundo Yorio Fujimoto, professor da Faculdade de Estudos Xintoístas da Universidade Kokugakuin, essa conexão está enraizada na dimensão espiritual do esporte japonês. “Os atletas vão a santuários ou templos – muitas vezes ligados à sua região natal, base de treinamento ou a um senso de identidade comum – individualmente ou em equipe, principalmente para orar pela vitória e pelo melhor desempenho antes da temporada”, explica Fujimoto. “De forma mais ampla, eles também oram para manter a saúde, evitar lesões e permanecer seguros na vida e nas viagens.”
O professor destaca que essa ligação remonta a mitos antigos do “Kojiki”, a mais antiga coleção de lendas do Japão, que inclui histórias de lutas entre deuses vistas como as origens do sumô. “Essas divindades, Takemikazuchi e Takeminakata, ainda são cultuadas hoje como deuses da competição”, disse. A influência dessas crenças percorre o esporte japonês, desde as artes marciais moldadas pelas crenças dos antigos guerreiros até o Yatagarasu – o corvo de três pernas do manto divino estampado no uniforme da seleção nacional de futebol – e os santuários de Hachiman, reverenciados pelos samurais.
Rituais coletivos, amuletos da sorte e a reverência aos equipamentos
Na era moderna, essa tradição se formaliza. Times da NPB (beisebol profissional), da J. League (futebol), da Japan Rugby League One e de outras ligas profissionais incorporaram visitas a santuários como parte da pré-temporada. No início do ano, jogadores, treinadores e comissão técnica se reúnem para oferecer seus hisshō kigan (orações pela vitória), marcando o primeiro ato coletivo de intenção da temporada. Fora do período de Ano Novo, também é comum os atletas buscarem santuários antes de competições importantes ou durante recuperações de lesão.
Muitos também carregam omamori, pequenos amuletos de pano vendidos em santuários e templos. A patinadora artística Kaori Sakamoto chegou aos Jogos de Inverno de Pyeongchang 2018 com 20 omamori balançando em sua mochila. Em 2023, a vitória do Samurai Japan no Clássico Mundial de Beisebol fez a demanda pelo kachi-mamori (amuleto da vitória) do templo Zenkoji, em Nagano, usado pelos membros da equipe, disparar.
Fujimoto observa que a linha entre rotina e ritual no esporte japonês é tênue. Em nenhum lugar isso é mais claro do que no sumô, onde a cerimônia dohyō matsuri (purificação do ringue) consagra a área de luta, transformando-a em um “espaço sagrado onde os lutadores mostram respeito um pelo outro e pela presença divina que acredita-se habitar ali”. Mesmo em esportes distantes do sumô, a mesma ética molda a abordagem dos atletas. A reverência ao campo ou à quadra e o cuidado meticuloso com os equipamentos – como Ichiro Suzuki fazia com seus tacos – são práticas que Fujimoto associa à antiga crença de que os objetos podem abrigar espírito, transformando a manutenção em um ato de gratidão.
Purificação para um novo começo
“O Ano Novo é um tempo de purificação”, resume o professor Fujimoto. “Um momento para os atletas limparem a mente, cumprimentarem o divino e se prepararem para o que está por vir.” Seja nas arquibancadas de um santuário milenar como o Atsuta Jingu em Nagoya – onde ocorrem festivais importantes como o Atsuta Matsuri, que anuncia o verão com apresentações de taiko e fogos de artifício – ou no gesto silencioso de um atleta antes da competição, a fusão entre espírito e esporte continua a definir o ritmo do ano esportivo no Japão.
Acompanhe mais atualizações no Japão em Pauta.






