Novos Lares: Como uma Casa Coletiva em Tóquio Está Redefinindo o Conceito de Família
Diante do aumento de lares unipessoais e da solidão, modelos de convivência baseados no apoio mútuo e na escolha ganham espaço no Japão
A paisagem familiar japonesa passa por uma transformação silenciosa e profunda. Se no passado as famílias multigeracionais sob um mesmo teto eram comuns, seguidas pela ascensão do modelo nuclear, hoje o país vê um aumento significativo de lares formados por uma só pessoa e uma busca por novas formas de convívio. Em resposta a essa mudança, modelos habitacionais inovadores, como as casas coletivas, surgem como uma alternativa para combater o isolamento social e criar comunidades de apoio. Um exemplo marcante é a “Casa Multigeracional de Mitaka”, localizada em Tóquio, onde pessoas de 5 a 95 anos convivem e constroem juntas um novo sentido de lar.
A atmosfera ao final do dia na casa coletiva é de familiaridade. O som de um “itadakimasu” (boa refeição) coletivo ecoa pela sala de jantar, onde crianças, adultos e idosos compartilham a mesa. Embora pareçam avó e neto, muitos não têm parentesco sanguíneo. O local combina funções de residência para idosos, apartamentos para famílias monoparentais e para estudantes, abrigando atualmente 12 domicílios. Uma mãe solo, que se mudou para o local com o filho pequeno, explica que a convivência com outros adultos traz segurança e que as refeições em grupo criaram um espaço de intimidade que ela buscava. Uma residente de 90 anos, que antes vivia sozinha, agora encontra alegria em jogar cartas e brincar com as crianças depois do jantar, encontrando um novo propósito no dia a dia.
Este modelo vai ao encontro de uma necessidade social urgente. Dados recentes mostram que o número de idosos que vivem sozinhos no Japão mais que dobrou em duas décadas, atingindo cerca de 6,7 milhões. Paralelamente, os lares com apenas uma pessoa representam hoje 38% do total, sendo a configuração mais comum no país. Nesse cenário, o apoio tradicional fornecido pela família restrita muitas vezes atinge seu limite, levando a uma maior vulnerabilidade e isolamento para solteiros, idosos e pais que criam os filhos sozinhos. Especialistas apontam que formas de apoio baseadas em conexões mais amplas e escolhidas, como as casas coletivas multigeracionais, tendem a se tornar cada vez mais relevantes.
A ideia de viver em comunidade não é totalmente nova, mas ganhou impulso nos anos 2000 com os “colective houses” e programas de compartilhamento de casa entre gerações. Alguns governos locais têm projetos próprios para incentivar que estudantes morem com idosos, oferecendo aluguéis baixos em troca de companhia e ajuda eventual. Para os idosos, a presença de jovens é um estímulo; para os estudantes, é uma forma de se conectar com a comunidade local e sua cultura. Um pesquisador do setor destaca que, em um momento de redução do tamanho das famílias, o apoio baseado em conexões mais flexíveis e amplas deve crescer.
Enquanto alguns redescobrem o valor da convivência comunitária, o conceito tradicional de família também se flexibiliza. Pesquisas com jovens revelam uma abertura para arranjos não convencionais, como casais que moram separados ou a prioridade dada à convivência com amigos próximos. A facilidade proporcionada pela tecnologia e pelo entretenimento digital torna a vida solo mais viável e, para muitos, preferível. Ao mesmo tempo, dentro dos núcleos familiares tradicionais, os papéis estão se reinventando, com casos de homens que assumem a função de dono de casa para permitir que suas esposas prosperem na carreira, desafiando antigas normas de gênero.
Curiosamente, em meio a essa diversificação, há também um movimento de retorno às raízes. A antiga configuração de três gerações sob o mesmo teto é reavaliada por alguns como uma solução prática para o cuidado com os idosos, o apoio na criação dos filhos e o combate à solidão. Várias prefeituras oferecem subsídios para famílias que optam por morar juntas ou próximas, e a demanda por esses programas indica um interesse renovado por esse modelo. O Japão contemporâneo, portanto, navega entre a preservação de tradições e a criação de novos formatos, buscando, acima de tudo, construir redes de apoio e pertencimento que sustentem seus cidadãos em todas as fases da vida.
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