Violência entre governo sírio e forças curdas escalona em Aleppo

Conflitos em Aleppo deixam mortos e milhares de deslocados na Síria

Violência entre forças do governo e milícias curdas ameaça frágil acordo de paz e causa crise humanitária

Pelo menos doze pessoas morreram e dezenas ficaram feridas após três dias de intensos combates entre o exército sírio e as Forças Democráticas Sírias (SDF), de maioria curda, na cidade norte de Aleppo. Os confrontos, que começaram na terça-feira, forçaram a fuga de dezenas de milhares de civis e levaram as Nações Unidas a pedir uma desescalada imediata.

As forças do governo sírio iniciaram ataques de artilharia concentrados contra posições do SDF nos distritos predominantemente curdos de Sheikh Maqsoud e Ashrafieh. Em resposta, o SDF reportou ter alvejado o bairro al-Midan. Ambos os lados trocam acusações sobre quem iniciou a violência, que marca um dos confrontos mais graves desde a queda do ex-presidente Bashar al-Assad, há pouco mais de um ano.

Os combates provocaram uma crise humanitária de grandes proporções. Estimativas das Nações Unidas indicam que cerca de 30.000 pessoas foram deslocadas, com mais de 2.000 famílias se deslocando para o distrito de Afrin. Autoridades locais chegar a estimar que mais de 138.000 pessoas tenham fugido de Sheikh Maqsoud e Ashrafieh. Muitos civis deixaram suas casas a pé, carregando poucos pertences, enquanto ônibus públicos foram mobilizados para transportar famílias. Mesquitas e escolas foram convertidas em abrigos temporários, mas com capacidade insuficiente para atender a todos.

A infraestrutura da cidade sofreu graves danos. Pelo menos três grandes hospitais tiveram que cessar operações após serem afetados pelos bombardeios. O aeroporto internacional de Aleppo suspendeu todos os voos, e rodovias principais para o centro da cidade foram paralisadas. Serviços básicos como eletricidade e água também sofreram interrupções parciais, aumentando o sofrimento da população civil.

O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, expressou alarme com as mortes de civis e pediu que todas as partes cumpram suas obrigações perante o direito internacional humanitário para proteger civis e infraestrutura civil. Um porta-voz das Nações Unidas instou todos os atores a “desescalar imediatamente, exercer máxima moderação e tomar todas as medidas para evitar mais danos aos civis”.

Os combates ocorrem em meio ao fracasso na implementação de um acordo político crucial assinado em março de 2025, que previa a integração das forças curdas semi-autônomas às instituições do Estado sírio central. O acordo, mediado pelos Estados Unidos, estipulava a fusão de todas as instituições civis e militares do SDF, incluindo postos fronteiriços, aeroportos e campos de petróleo e gás, sob o controle do governo de Damasco. No entanto, o processo está paralisado, com cada lado acusando o outro de agir de má fé e violar os termos do entendimento.

O SDF, que controla vastas áreas do norte e nordeste da Síria ricas em petróleo, reluta em abrir mão da autonomia que conquistou durante os 14 anos de guerra civil. A violência em Aleppo expõe as profundas divisões e a desconfiança que permanecem no país, arriscando mergulhar a Síria em um novo ciclo de conflito mais amplo. A comunidade internacional observa com preocupação, temendo que a instabilidade possa atrair a intervenção de atores regionais como a Turquia, que considera as milícias curdas uma ameaça terrorista.

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