Doação de chocolates cresce 70% em 2 anos, mas prática no trabalho despenca

Chocolate no Dia dos Namorados no Japão: tradição se transforma com alta de 70%

Pesquisa da Meiji mostra crescimento impulsionado por chocolates para amigos e família, enquanto a prática no ambiente de trabalho registra forte declínio

A tradição do chocolate no Dia de São Valentim no Japão está passando por uma transformação significativa. Uma pesquisa anual da empresa de confeitos Meiji revela um aumento de quase 70% em apenas dois anos no número de mulheres que presentearam alguém com chocolate. Em 2025, 39,5% das entrevistadas disseram ter dado chocolate, seja caseiro ou comprado, ante 23,3% em 2023. Esse crescimento, no entanto, esconde uma mudança profunda nos costumes: os chamados “giri choco” (chocolates por obrigação) para colegas de trabalho estão em franco declínio, enquanto presentear amigos, familiares e a si mesma ganha força.

O retorno à normalidade após a pandemia é apontado como um dos motivos para o reaquecimento da tradição. O fim das restrições permitiu a retomada das interações sociais presenciais, fundamentais para a troca de doces. Paralelamente, o hábito de dar “tomo choco” (chocolate para amigos) explodiu, especialmente entre as mais jovens. Dados da Meiji mostram que, entre estudantes do ensino médio, a porcentagem das que fazem chocolates para amigas saltou de 36,3% durante a pandemia para 79,5% em 2025.

Em nítido contraste, a prática de presentear colegas de trabalho por obrigação parece estar com os dias contados. Uma pesquisa separada da Nippon Life Insurance aponta que apenas 12,5% das pessoas planejam dar chocolates no ambiente profissional este ano, o índice mais baixo já registrado. Para a pesquisadora Naoko Kuga, do NLI Research Institute, o trabalho remoto e a maior rotatividade de empregos enfraqueceram os relacionamentos pessoais no escritório, minando a tradição. Outro levantamento, da Intage, já indicava uma resistência crescente ao “giri choco”, vista por muitas como uma forma de gasto forçado.

Os altos preços do cacau no mercado internacional também estão moldando os novos hábitos. O custo médio de um chocolate para a data subiu 5,8% em relação a 2024. Diante disso, as pessoas estão sendo mais seletivas, destinando seu orçamento a presentear quem realmente importa. Lojas de departamento notam que os gastos com chocolates para o parceiro romântico (“honmei choco”) e para si mesma (“jibun choco”) têm aumento expressivo, enquanto os para colegas estagnam. Essa realocação do orçamento é uma tendência clara no novo cenário.

Apesar das mudanças, o mercado do Valentine’s Day mantém um peso econômico colossal. Segundo estimativas do professor emérito Katsuhiro Miyamoto, da Universidade de Kansai, o efeito econômico dos chocolates da data foi de aproximadamente 1,011 trilhão de ienes (cerca de 100 bilhões de reais) em 2025. O valor, que já superou 1,2 trilhão de ienes antes da pandemia, se estabilizou na casa de 1 trilhão, sustentado justamente pelo consumo direcionado a relacionamentos genuínos e pelo autocuidado.

Assim, a tradição japonesa do Valentine’s Day não está desaparecendo, mas se reinventando. Ela se move para longe das obrigações sociais impessoais e em direção a gestos de afeto voluntários, sejam eles para celebrar a amizade, o amor ou simplesmente o prazer de se presentear. O chocolate permanece no centro da data, mas seu significado e destino estão mais pessoais e significativos do que nunca.

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