Corte de 83% da ajuda externa dos EUA afeta milhões e reduz influência ocidental.

Um Ano de Vazio: O Impacto Global dos Cortes Americanos na Ajuda Humanitária

Decisão de Trump de desmontar a USAID completa um ano com balanço trágico e mudanças na geopolítica da assistência internacional

Passado um ano desde que a administração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, iniciou o desmonte da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), o cenário global é de crise humanitária aprofundada e realinhamento geopolítico. O que foi anunciado como um congelamento temporário de verbas transformou-se em um cancelamento massivo de programas, com o secretário de Estado, Marco Rubio, anunciando o fim de 83% das iniciativas da agência. Segundo pesquisadores, essa interrupção brusca já causou centenas de milhares de mortes que poderiam ter sido evitadas e deve contribuir para milhões mais.

Os efeitos são sentidos dos campos de refugiados na África a comunidades na Ásia. No Nepal, por exemplo, um programa que administrava vitamina A a mais de 3 milhões de crianças em áreas remotas, estimado ter salvado 45 mil vidas desde os anos 1990, foi abruptamente interrompido. No Brasil, projetos de assistência a refugiados venezuelanos, resiliência climática no Nordeste e apoio a comunidades indígenas tiveram seus repasses congelados, expondo a fragilidade de modelos de cooperação que dependiam do financiamento americano.

A arquitetura internacional de ajuda entrou em colapso. Dados do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários mostram uma queda superior a 70% nos repasses de 2024 para 2025. Agências como o Programa Mundial de Alimentos e o Alto Comissariado para Refugiados, que tinham na USAID seu principal pilar financeiro, lutam para manter operações. Para tentar preencher o vazio, algumas organizações têm buscado alternativas inéditas, como a parceria da Organização Internacional para as Migrações com a federação empresarial do Rio Grande do Sul para construir abrigos após as enchentes de 2024, em um exemplo do que analistas chamam de “privatização da ajuda”.

O recuo americano também está remodelando a influência global. Especialistas alertam que a suspensão da ajuda, historicamente um instrumento de soft power dos EUA, cria um vácuo que está sendo observado por outros atores. A China, que tem expandido seu engajamento internacional, surge como uma potencia alternativa, embora seu modelo de assistência, frequentemente criticado por falta de transparência, seja distinto. Paralelamente, a decisão americana reverbera em aliados como o Japão, onde pesquisas de opinião indicam que o apoio público à expansão da assistência oficial para o desenvolvimento caiu para seu nível mais baixo na última década, em um clima econômico desafiador e influenciado pela postura de Washington.

O legado de programas globais de saúde, que levaram décadas para ser construído, está em risco imediato. Iniciativas de combate ao HIV/AIDS, malária e tuberculose em nações pobres foram massivamente desorganizadas. Em Botsuana, clínicas que distribuíam medicamentos antirretrovirais para milhares de pacientes mensalmente através de programas financiados pelos EUA reportaram ter fechado suas portas, com ativistas descrevendo a interrupção do tratamento como uma “sentença de morte” para muitos.

Enquanto processos judiciais nos Estados Unidos contestam a legalidade dos cortes e buscam o pagamento de bilhões em contratos pendentes, o cenário no terreno é de incerteza e carência. A promessa inicial do governo Trump de preservar a ajuda emergencial que “salva vidas” parece ter dado lugar a uma redução estrutural, levantando questões sobre o futuro da liderança ocidental em crises humanitárias e o custo humano de uma política de “America First” aplicada ao desenvolvimento global.

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