Dia dos Namorados no Japão vira celebração do autocuidado
Pesquisa mostra que 65% dos consumidores compram chocolates para si mesmos, sinalizando mudança cultural profunda
À medida que o Dia dos Namorados se aproxima, uma transformação significativa ocorre nas tradições japonesas: o costume de presentear colegas e conhecidos com os chamados “giri choco” (chocolates de obrigação) continua em declínio, dando lugar a uma celebração mais pessoal e voltada para o autocuidado. Uma pesquisa recente da loja de departamentos Matsuya Ginza, em Tóquio, revela que 65% dos consumidores agora planejam comprar chocolates para si mesmos, tornando o autopresente a categoria mais popular, à frente dos presentes para parceiros românticos (53,7%) e dos chocolates de amizade (28,5%). Os tradicionais chocolates obrigatórios para colegas aparecem com apenas 20,1%.
O orçamento dedicado a essa nova forma de celebrar é revelador: os consumidores planejam gastar em média 10.662 ienes (cerca de R$ 350) com chocolates para si próprios, valor quase o dobro dos 5.573 ienes (aproximadamente R$ 180) reservados para presentes a parceiros. A pesquisa, realizada com 1.328 pessoas em dezembro de 2025, registrou casos extremos de gastos de até 300.000 ienes (cerca de R$ 9.700) em autopresentes. Para acompanhar essa mudança de comportamento, as grandes lojas de departamentos estão remodelando completamente suas campanhas de vendas, substituindo as simples vitrines de chocolates por experiências gastronômicas e sensoriais completas.
Experiências sensoriais substituem presentes tradicionais
A Matsuya Ginza está na vanguarda dessa transformação com seu evento “Ginza Valentine World”, realizado de 4 a 14 de fevereiro. O conceito “Cacau para os Cinco Sentidos” reúne 74 marcas e prioriza experiências de degustação no local, com 23 participantes oferecendo demonstrações ao vivo ou espaços para comer no próprio estabelecimento – o maior número já registrado. “É caro, mas é uma experiência única e altamente satisfatória que só pode ser aproveitada aqui”, destacou o comprador Sho Koizumi durante uma prévia para a imprensa.
Uma das atrações é um menu degustação por 18.700 ienes (cerca de R$ 600) que combina chocolate branco com frutas e bebidas alcoólicas. Outras lojas, como a Takashimaya, também investem em experiências, com renomados confeiteiros preparando sobremesas como parfaits para os clientes consumirem no local. Essa tendência se conecta com o fenômeno cultural do “oshi-katsu” (torcer por seus favoritos), em que fãs, especialmente mulheres jovens, visitam estabelecimentos para apoiar chefs específicos.
Impacto do “choque do cacau” e criatividade nacional
Enquanto isso, um fator externo está pressionando o setor: o chamado “choque do cacau”, com falhas nas safras globais elevando drasticamente os preços das amêndoas. No mercado doméstico japonês, os preços do chocolate estavam aproximadamente 30% mais altos em novembro de 2025 em comparação com o ano anterior.
Em resposta, as marcas estão se adaptando de forma criativa. Uma pesquisa interna da Matsuya Ginza com 15 marcas revelou aumentos médios de preço de 10,3%, mas também estratégias para mitigar custos, como substituir fitas por papel e bandas, ou alterar fontes e conteúdo de cacau. Outras, como a “Patisserie Couleur”, de Nagano, passaram a focar em ingredientes locais como trigo sarraceno e uvas Shine Muscat. “O aumento do custo de vida é difícil, mas (usar produtos locais) é mais econômico do que importar. Interagimos com agricultores locais e compramos frutas fora do padrão em troca de ajuda no trabalho da fazenda”, explicou um representante da marca.
Feiras transformam Tóquio em capital mundial do chocolate
A temporada transforma Tóquio em uma verdadeira “meca do chocolate”, com feiras especiais nas principais lojas de departamentos a partir de meados de janeiro. O “Salon du Chocolat” da Isetan Shinjuku, por exemplo, reúne 153 marcas em 2026. A Seibu Shibuya promove um “Paraíso do Chocolate” com produtos que podem ser tocados, vistos e cheirados, enquanto a Shibuya Scramble Square apresenta um pop-up do conceituado restaurante “incanto” com uma barra de chocolate exclusiva.
Paralelamente ao crescimento do autoconsumo, outra tendência ganha força: o “tomo choco” (chocolate para amigas), que ressignifica a data como uma celebração entre mulheres. Uma pesquisa anual da empresa Meiji com aproximadamente 1.000 mulheres japonesas mostrou que a porcentagem das que deram chocolate a alguém saltou de 23,3% em 2023 para 39,5% em 2025, indicando um retorno do aspecto social da data após os protocolos da pandemia.
Assim, o Dia dos Namorados no Japão se transforma de um ritual de obrigações sociais em uma celebração multifacetada que equilibra autocuidado, experiências sensoriais de alta qualidade e novas formas de conexão interpessoal, refletindo mudanças mais profundas nos valores da sociedade japonesa contemporânea.
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