Governo iraniano divulga primeiro balanço oficial de vítimas após repressão a protestos

Irã anuncia mais de 3 mil mortos após violenta repressão a protestos

Governo divulga primeiro balanço oficial, mas organizações de direitos humanos estimam que número real de vítimas pode ser até seis vezes maior

O governo do Irã divulgou nesta quinta-feira (22) seu primeiro balanço oficial de vítimas dos protestos que sacudiram o país nas últimas semanas, anunciando 3.117 mortos. A cifra, no entanto, está muito abaixo das estimativas de organizações internacionais de direitos humanos, que calculam que o número real possa chegar a 20 mil pessoas. O anúncio ocorre após semanas de violentos confrontos entre manifestantes e forças de segurança, que incluíram relatos de pessoas baleadas com medo de procurar atendimento médico.

Os protestos começaram em 28 de dezembro de 2025, inicialmente motivados pela crise econômica que assola o país, com inflação anual superior a 42% e uma desvalorização acentuada da moeda nacional. O movimento rapidamente evoluiu para um dos maiores desafios ao regime clerical que governa o Irã desde a Revolução Islâmica de 1979, com manifestantes passando a exigir reformas políticas, mais liberdades e criticando diretamente o governo do líder supremo Ali Khamenei.

A repressão promovida pelas autoridades iranianas foi descrita por testemunhas como extremamente violenta. Relatos incluem jovens baleados nas costas, pessoas atingidas por pellets de espingarda no rosto e feridos com medo de ir aos hospitais por temerem represálias. Uma mãe em Teerã relatou que sua filha de 15 anos foi morta após participar de uma manifestação perto de casa, enquanto tentava voltar para o lar. Outro relato menciona uma enfermeira morta por disparos diretos das forças governamentais durante protestos em Karaj, a oeste da capital.

Para conter a disseminação de informações, o governo impôs um bloqueio total da internet que já dura mais de 300 horas, considerado um dos mais prolongados e severos já registrados no país. Além disso, as autoridades conseguiram bloquear até mesmo o serviço de internet via satélite Starlink, da empresa de Elon Musk, que muitos iranianos usavam para contornar as restrições. Especialistas descreveram essa obstrução como “algo sem precedentes”, isolando efetivamente a população civil do resto do mundo durante os momentos mais críticos dos protestos.

O regime iraniano classificou os manifestantes como “terroristas” e “sabotadores”, acusando os Estados Unidos e Israel de estarem por trás dos distúrbios. Em contrapartida, o presidente americano Donald Trump ameaçou impor tarifas de 25% sobre países que fazem negócios com o Irã e alertou sobre possíveis intervenções militares. No cenário internacional, o presidente de Israel, Isaac Herzog, declarou que o regime do aiatolá Ali Khamenei “vive um momento de grande fragilidade” e expressou esperança por uma mudança estrutural no país vizinho.

Apesar da violência, o governo iraniano anunciou que os protestos chegaram ao fim. O procurador-geral Mohammad Movahedi declarou que “a sedição acabou”, enquanto o líder supremo Ali Khamenei afirmou em discurso televisionado que os protestos foram “extintos”. As ruas de Teerã e outras cidades que foram palco dos maiores confrontos aparecem agora mais calmas, segundo relatos de moradores, ainda que mantenham forte presença de forças de segurança.

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