Maior usina de hidrogênio verde do mundo simboliza a revitalização de Fukushima

Do nuclear ao renovável: Fukushima tece seu futuro com hidrogênio verde

Maior instalação do mundo no segmento se torna símbolo da revitalização de uma região que reescreve sua história energética

Enquanto o descomissionamento da usina nuclear de Fukushima Daiichi avança lentamente, quase 15 anos após o acidente de 2011, a paisagem costeira da prefeitura ganha novos marcos: tanques brancos imponentes e uma instalação de produção de hidrogênio. Localizado a menos de 30 quilômetros da usina acidentada, o Campo de Pesquisa de Energia de Hidrogênio de Fukushima (FH2R, na sigla em inglês) representa a aposta da região em um novo capítulo de sua história energética, distante do trauma nuclear.

O acidente de 2011, desencadeado por um terremoto e tsunami, levou a uma reavaliação profunda da política energética japonesa, com um movimento inicial de redução da dependência nuclear e maior investimento em fontes renováveis. Neste contexto, Fukushima estabeleceu a ambiciosa meta de atender todas as suas necessidades energéticas com renováveis por volta de 2040. O projeto do hidrogênio verde surge como um pilar central nesta transição, posicionando a região não como um símbolo do passado, mas como um laboratório do futuro.

Gerenciado pela Organização para Desenvolvimento de Tecnologia Industrial e Energia Nova (NEDO) do Japão, em colaboração com gigantes do setor privado como a Toshiba, o FH2R é a maior instalação do mundo dedicada à produção de hidrogênio utilizando exclusivamente energia renovável. Desde março de 2020, a planta utiliza eletricidade gerada por painéis solares para realizar a eletrólise da água, separando as moléculas de hidrogênio sem emitir gases de efeito estufa no processo.

A localização na cidade de Namie, que foi totalmente evacuada após o desastre nuclear e começou a receber de volta seus residentes a partir de 2017, carrega um profundo simbolismo. Autoridades descrevem o FH2R como um “projeto simbólico que mostra a tecnologia de hidrogênio do Japão e a revitalização da região para o mundo”. Caminhões para transporte de hidrogênio estacionados no local exibem um desenho colorido de crianças da região e a mensagem “Vamos tecer o futuro com o hidrogênio de Fukushima”.

Além do símbolo: os usos e a lógica do hidrogênio verde

O hidrogênio produzido em Namie já abastece veículos oficiais e serviços de entrega com células de combustível, gera energia para um posto de descanso à beira da estrada e é testado como fonte de energia limpa em uma fábrica da prefeitura. Este modelo de produção e consumo local é visto como uma das principais conquistas do projeto piloto. No entanto, um grande desafio persiste: o alto custo de produção, que torna o hidrogênio mais caro do que usar a energia renovável diretamente.

Diante da meta de ser 100% renovável até 2040, surge a pergunta: por que Fukushima investe em hidrogênio, uma fonte de energia secundária? A resposta está na flexibilidade. O hidrogênio atua como uma “bateria” química, permitindo armazenar o excedente de energia gerada por fontes intermitentes, como solar e eólica, nos momentos de pico de produção. “Ele pode ajudar a ‘equilibrar’ a oferta de energia à rede, aumentando o potencial para implantação de energia renovável”, explica um vice-diretor da divisão de Indústria de Próxima Geração da prefeitura. Além disso, por ser compatível com armazenamento de longo prazo e transporte a longas distâncias, o hidrogênio abre portas para a criação de novas indústrias e empregos, contribuindo para a revitalização econômica regional.

O grande debate: hidrogênio verde versus azul

O modelo de Fukushima, focado no “hidrogênio verde” 100% renovável, não reflete totalmente a estratégia nacional do Japão. O governo central, que destinou trilhões de ienes em subsídios para a tecnologia de hidrogênieno, também apoia a produção de “hidrogênio azul”, que utiliza combustíveis fósseis combinados com tecnologia de captura de carbono. Esta abordagem tem sido criticada por grupos ambientalistas, que argumentam que o hidrogênio derivado de fósseis tem pouca eficácia na redução de emissões e pode se tornar um ativo obsoleto.

Especialistas locais reconhecem que, no curto prazo, diferentes fontes de hidrogênieno podem ser necessárias para impulsionar o mercado. No entanto, para um futuro sustentável, o caminho é claro. “Para construir uma sociedade sustentável, o hidrogênio verde produzido a partir de energia renovável, sem depender de combustíveis fósseis, será importante daqui para frente”, afirma o diretor do Instituto de Pesquisa de Energia de Hidrogênio da Universidade de Fukushima. “Estimamos que o hidrogênio usado em Fukushima, rico em recursos naturais, será principalmente hidrogênio verde.”

O sucesso de Fukushima começa a inspirar outras regiões do Japão, como Yamanashi e Hokkaido, que também iniciam projetos de hidrogênio verde em colaboração com o governo e empresas. Enquanto o planeta esquenta e o tempo para ações climáticas eficazes se torna cada vez mais curto, o mundo observa se o Japão, através de projetos como o FH2R, conseguirá se tornar a primeira verdadeira “sociedade do hidrogênio verde” do mundo.

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