População cai recorde, mas tema é evitado na campanha eleitoral

Eleições no Japão ignoram crise demográfica que ameaça futuro do país

Enquanto população tem maior queda em 50 anos, partidos evitam debate sobre o tema central para as regiões

O Japão enfrenta seu maior declínio populacional em mais de meio século, com uma redução de quase um milhão de pessoas em apenas um ano, mas este tema crítico segue sendo sistematicamente ignorado pelos partidos políticos na atual campanha eleitoral para a Câmara dos Deputados. Analistas apontam que tanto o governo quanto a oposição evitam confrontar diretamente o problema, considerado “negativo” e que não gera votos, enquanto as projeções indicam um futuro preocupante para as cidades regionais.

Dados oficiais revelam que, no ano passado, o país registrou apenas 686.061 nascimentos, o menor número desde o início dos registros em 1899, contra aproximadamente 1,6 milhão de mortes. Esta diferença representa o décimo sexto ano consecutivo de declínio populacional, exercendo pressão crescente sobre os sistemas de previdência e saúde nacionais. O primeiro-ministro Shigeru Ishiba já classificou a crise demográfica como uma “emergência silenciosa”.

As consequências deste encolhimento já são visíveis nas principais cidades do país. Uma análise recente mostra que metade das 20 maiores cidades japonesas, cada uma com pelo menos 700 mil habitantes, registrou declínio populacional na última década. Projeções para 2050 são ainda mais alarmantes, indicando que 18 dessas cidades continuarão a encolher. Entre as chamadas “cidades designadas por decreto”, Kitakyushu, em Fukuoka, teve a queda mais acentuada, com redução de 6,5% de sua população.

Paradoxalmente, o tema praticamente desapareceu dos debates eleitorais. Apesar de a população e o futuro das regiões serem considerados um dos temas mais críticos que deveriam ser abordados nas eleições nacionais, tanto o partido governista quanto as oposições têm falhado repetidamente em confrontar a questão diretamente, permitindo que as discussões a contornem. Especialistas sugerem que isso ocorre porque o assunto é visto como negativo e não atrai votos facilmente.

Esta omissão é particularmente notável no contexto do agravamento da escassez de mão de obra. O número de trabalhadores estrangeiros no Japão atingiu um recorde de 2,57 milhões em outubro de 2025, mas o debate político sobre como integrar essa força de trabalho essencial permanece superficial e polarizado. Uma pesquisa com candidatos às eleições revelou uma divisão quase igual: 37% defendem reduzir ou interromper a aceitação de trabalhadores estrangeiros, enquanto 36% são favoráveis a manter ou aumentar o ritmo atual.

A imigração tornou-se um ponto de discórdia eleitoral, com partidos como o Sanseito, de perfil populista, defendendo maior controle com o lema “japoneses em primeiro lugar”. Esta retórica influenciou outras legendas, incluindo o Partido Liberal Democrático no poder, que prometeu discutir regras mais rígidas para aquisição de imóveis por estrangeiros. Entretanto, especialistas alertam que o foco excessivo no controle ignora a necessidade de criar condições para uma convivência harmoniosa, já que os estrangeiros se tornaram “uma presença indispensável para a manutenção da sociedade”, conforme destacou o jornal Yomiuri.

Enquanto isso, a concentração populacional na região metropolitana de Tóquio continua inabalável, com um saldo migratório positivo de mais de 120 mil pessoas em 2025. O governo anterior estabeleceu metas ambiciosas para reverter este fluxo, mas a atual administração retirou esses objetivos oficiais de sua estratégia, focando-se mais no desenvolvimento econômico regional do que no reequilíbrio demográfico. Líderes regionais expressam frustração, afirmando que o problema já está além da capacidade de soluções locais e exigindo uma intervenção nacional coordenada.

O sistema político atual, com frequentes dissoluções da Câmara dos Deputados, dificulta discussões de longo prazo sobre temas estruturais como o declínio populacional. Os partidos têm evitado apresentar uma visão abrangente que combine políticas para força de trabalho estrangeira, eficiência digital e manutenção seletiva de infraestrutura envelhecida. Sem este debate urgente, o Japão continua adiando decisões cruciais que determinarão a sustentabilidade de suas comunidades regionais nas próximas décadas.

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