Definição de ‘imigração’ paralisa debate eleitoral no Japão em meio a influxo recorde
Partidos governistas e de oposição falam línguas diferentes enquanto população estrangeira atinge números históricos
A crescente aceitação de trabalhadores estrangeiros emergiu como uma questão-chave na eleição geral japonesa, mas os partidos parecem estar falando línguas diferentes devido a definições conflitantes do que constitui “imigração”. Enquanto partidos de oposição, como o populista Sanseito, criticam abertamente a entrada de estrangeiros como uma política de imigração, o Partido Liberal Democrata (PLD), no governo, insiste que não está perseguindo tal política, definindo imigrantes apenas como aqueles com residência permanente. Especialistas alertam que um debate político significativo permanecerá difícil até que os partidos cheguem a um entendimento comum.
Uma pesquisa com candidatos revela um país profundamente dividido: 37% defendem que o Japão reduza ou interrompa a aceitação de trabalhadores estrangeiros, enquanto 36% são favoráveis à manutenção ou ampliação do ritmo atual. Outros 27% não têm posição definida. A divisão é ainda mais nítida entre os partidos. No Partido da Inovação do Japão (Ishin no Kai), parceiro de coalizão do PLD, cerca de 90% dos candidatos afirmam que a aceitação deve ser reduzida, defendendo um limite máximo para a proporção de estrangeiros na população total. Já na oposição, a Aliança de Reforma Centrista apresenta maior abertura, com 17% de seus candidatos defendendo uma aceitação mais ativa.
Este debate teórico ocorre contra um pano de fundo de transformação demográfica acelerada. O número de residentes estrangeiros no Japão atingiu um recorde de quase 4 milhões no final de junho de 2025, representando 3,2% da população. O número de trabalhadores estrangeiros também bateu recorde, superando 2,57 milhões em outubro de 2025, um aumento de 11,7% em um ano. Projeções oficiais sugerem que os estrangeiros poderão representar mais de 10% da população até 2070, mas análises locais indicam que essa mudança já está acontecendo décadas antes em vários municípios, alguns dos quais já ultrapassaram a marca de 10%, chegando a mais de um terço em uma vila em Hokkaido.
O impasse nas definições tem raízes profundas. O PLD, desde a era do ex-premiê Shinzo Abe, argumenta em suas propostas que imigrantes são “aqueles que têm a chamada residência permanente no momento da entrada” no Japão, excluindo os que possuem status de residência para trabalho. Em 2024, o então primeiro-ministro Fumio Kishida reforçou essa posição, afirmando que aceitar trabalhadores com limites setoriais e sem direito a trazer a família “não se enquadraria em uma chamada política de imigração”. Essa visão estreita contrasta com as definições mais amplas adotadas por organizações como a ONU e a OCDE, que consideram imigrantes pessoas que vivem em um país por um ano ou mais.
Analistas apontam que a insistência do PLD em negar a existência de uma política de imigração está cada vez mais desconectada da realidade percebida pelo público. Enquanto isso, a principal entidade empresarial do país, a Keidanren, declara que os estrangeiros já se tornaram parte essencial da economia japonesa e defende uma política de aceitação estratégica. O debate, portanto, transcende a semântica e toca no cerne do futuro do Japão: como uma sociedade historicamente homogênea irá se adaptar, gerenciar e, eventualmente, integrar uma população estrangeira em crescimento constante, vital para contrapor o declínio populacional e a escassez crítica de mão de obra.
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