Aquecimento global ameaça futuro dos esportes de neve e das Olimpíadas de Inverno
Com menos neve natural e temperaturas mais altas, organizadores e atletas buscam alternativas para manter as competições
As Olimpíadas de Inverno Milano Cortina 2026 acontecem em meio a um cenário preocupante para os esportes de neve. O aumento das temperaturas globais tem reduzido drasticamente a cobertura de neve nos Alpes italianos, colocando em xeque não apenas a atual edição dos Jogos, mas o futuro de todo o calendário competitivo.
Michele Comi, geólogo e instrutor de esqui alpino da região de Valmalenco, testemunhou as mudanças ao longo das décadas. “Quando eu era criança, as crianças brincavam de trenó no campo em frente ao meu estúdio. Isso não acontece mais, não por falta de interesse, mas porque não há neve”, relata. A apenas 100 quilômetros dali, Cortina d’Ampezzo, um dos principais palcos das Olimpíadas, registrou um aumento de 3,6°C na temperatura média de fevereiro desde que sediou os Jogos pela primeira vez, há 70 anos.
A situação levou ao abandono de estações de esqui em toda a Europa. Só na Itália, 265 resorts estão desativados, enquanto a França viu 186 estações fecharem. A redução média da camada de neve nos Alpes ultrapassa 8% por década desde os anos 1970, e a temporada de neve ficou até 34 dias mais curta em altitudes abaixo de 2.000 metros.
Para contornar o problema, a indústria do turismo e os organizadores dos Jogos recorrem cada vez mais à neve artificial. Atualmente, 90% das pistas italianas dependem dela. Em Livigno, onde acontecem as competições de snowboard e esqui estilo livre, foi construído um dos maiores reservatórios da Europa para abastecer os canhões de neve. No entanto, a técnica exige temperaturas de pelo menos -2°C, condição que se torna mais rara com o aquecimento.
Um estudo recente aponta que, até meados do século, o número de dias adequados para a produção de neve artificial na província de Belluno (onde fica Cortina) pode cair 40%, provocando perdas milionárias para os operadores. “Quando incluímos a neve artificial nas projeções, vemos que ainda será possível esquiar, mas o impacto é significativo”, explica Robert Steiger, pesquisador da Universidade de Innsbruck.
O Comitê Olímpico Internacional (COI) já atualizou seus critérios de seleção de sedes: a partir de agora, as candidatas precisam comprovar condições confiáveis de neve até meados do século. Entre as propostas mais radicais está a separação geográfica entre as Olimpíadas e as Paralimpíadas de Inverno, já que estas últimas ocorrem em março, quando o clima é ainda mais desfavorável.
“Não podemos reverter a tendência, mas podemos reduzir significativamente sua magnitude”, afirma Paola Mercogliano, cientista do Centro Euro-Mediterrânico sobre Mudanças Climáticas. “Mesmo em um cenário de baixas emissões, a redução da neve nos Alpes é inevitável.”
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