Pronomes em japonês: muito mais do que palavras gramaticais
Em um idioma onde o sujeito pode ser omitido, a escolha de como dizer “eu” fala sobre identidade, gênero e posição social
Enquanto em inglês a discussão sobre pronomes frequentemente gira em torno de “he”, “she” e “they”, no japonês a realidade linguística é consideravelmente mais complexa e sutil. Os pronomes de primeira pessoa como ‘watashi’, ‘boku’, ‘ore’ e ‘atashi’ carregam fortes conotações de gênero, formalidade e até mesmo atitude, formando um intricado sistema de expressão pessoal que vai muito além da simples função gramatical.
Uma característica fundamental do japonês é que os pronomes são usados com muito menos frequência do que em idiomas como o inglês. Isso ocorre porque a estrutura da língua permite, e muitas vezes prefere, a omissão do sujeito quando ele pode ser inferido pelo contexto. Essa peculiaridade linguística oferece uma certa neutralidade inicial em conversas, já que se pode falar sobre alguém por um bom tempo sem revelar obrigatoriamente seu gênero através de pronomes.
Um espectro de identidades na ponta da língua
Quando os pronomes são usados, no entanto, a escolha fala volumes. ‘Watashi’ é considerado o termo mais formal e neutro, adequado para situações profissionais e usável por qualquer pessoa, independentemente do gênero. Porém, em contextos casuais, ‘watashi’ tende a ser associado mais ao feminino. No outro extremo do espectro está ‘ore’, um pronome fortemente marcado como masculino, casual e por vezes assertivo ou até rude, usado principalmente entre homens em situações informais.
Entre esses dois polos estão ‘boku’, tradicionalmente usado por meninos e homens jovens, que transmite uma imagem mais suave que ‘ore’ mas ainda masculina, e ‘atashi’, uma variante considerada feminina e um pouco mais casual que ‘watashi’. A riqueza do sistema, porém, não para aí. Existem dezenas de outros pronomes, alguns regionais, outros arcaicos, cada um com suas próprias nuances.
A busca por expressão não binária e o uso de ‘jibun’
Para pessoas não binárias ou que não se identificam estritamente com os gêneros masculino ou feminino, navegar por esse terreno linguístico pode ser um desafio. Em resposta, muitos têm adotado o pronome ‘jibun’, que significa literalmente “si mesmo”. Originalmente um termo reflexivo, ‘jibun’ não carrega conotações de gênero inerentes, tornando-se uma opção popular entre quem busca neutralidade. Seu uso como pronome de primeira pessoa é uma inovação relativamente recente na língua.
No Japão, o termo “X-gênder” (Xジェンダー) tem ganhado espaço para descrever identidades de gênero que não se encaixam exclusivamente nas categorias binárias de masculino ou feminino. A conscientização sobre diversidade de gênero tem crescido, especialmente entre os jovens em grandes centros urbanos, influenciando também a percepção sobre o uso dos pronomes.
Especialistas notam que, na prática, as fronteiras do uso dos pronomes são mais fluidas do que as regras tradicionais sugerem. Mulheres, em certas regiões ou contextos específicos, podem usar ‘boku’ sem estranhamento. Em momentos de forte emoção, como a raiva, pessoas que normalmente usam pronomes considerados mais suaves podem recorrer a ‘ore’ para dar força à sua fala, independentemente do gênero.
No entanto, em ambientes formais de trabalho ou em regiões mais conservadoras, desviar-se das expectativas tradicionais de gênero na linguagem ainda pode ser recebido com estranheza ou incompreensão. A estratégia mais comum e segura para muitos, especialmente em encontros iniciais ou situações profissionais, continua sendo o uso do neutro e formal ‘watashi’. A linguagem, como espelho da sociedade, continua sua evolução lenta mas constante.
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