Aquecimento acelerado dos mares força migração de peixes e ameaça tradições japonesas.

Mares mais quentes redesenham a costa e a cultura do Japão

Aquecimento acelerado, correntes alteradas e migração de espécies transformam a pesca, a culinária e a vida nas comunidades litorâneas

O aquecimento global está a reescrever o mapa marinho do Japão a uma velocidade alarmante. Enquanto espécies icônicas como o salmão e a sardinha japonesa recuam para norte ou veem o seu habitat encolher, peixes de águas quentes, como a anchova e alguns tubarões, avançam para regiões onde antes eram raros. Esta mudança, impulsionada por um aquecimento das águas costeiras que duplica a média global, está a ter impactos profundos e tangíveis nas comunidades pesqueiras, na economia e na própria cultura alimentar japonesa.

Dados oficiais indicam que a temperatura média da superfície do mar nas águas costeiras do Japão subiu mais de 1,14°C nos últimos 100 anos, um ritmo significativamente superior ao aumento médio global dos oceanos. Este fenómeno é particularmente intenso no norte do país, onde o Mar do Japão e o Oceano Pacífico ao largo da região de Tohoku registam alguns dos aquecimentos mais rápidos. A principal força por trás desta transformação é a alteração do comportamento da poderosa Corrente Kuroshio, uma “autoestrada” de água quente tropical que banha a costa sul do arquipélago.

Recentemente, esta corrente estabeleceu um padrão de “meandro” anómalo que durou quase oito anos, desviando águas excecionalmente quentes para novas áreas. Além disso, a extensão norte da Kuroshio deslocou-se centenas de quilómetros para mais perto do polo, um movimento ligado às alterações nos ventos globais causadas pelas mudanças climáticas. Este deslocamento fez com que algumas áreas, como a costa de Sanriku, registassem temperaturas oceânicas até 6°C acima da média, com picos de 10°C mais quentes nas camadas subsuperficiais.

O resultado é uma reorganização em grande escala da vida marinha. No norte, pescadores que dependiam do salmão e da cavala enfrentam capturas em queda livre, enquanto aparecem espécies inesperadas como o peixe-espada e o baiacu. O salmão, em particular, sofreu um forte declínio, com um estudo científico recente a atribuir a queda às alterações nos seus territórios de alimentação e invernada no Pacífico Norte, reduzidos pelo aquecimento. Em Hokkaido, a captura de salmão em 2025 foi cerca de cinco vezes menor do que em 2022. Paralelamente, no sul, a tradição centenária de capturar “tachiuo” (peixe-espada) na baía de Osaka está a desaparecer, pois este peixe migra para águas mais a norte, perto de Chiba e Ibaraki.

A Península de Izu, banhada pela Kuroshio, é um microcosmo das mudanças. Mergulhadores agora observam cardumes de peixes tropicais de cores vivas, inimagináveis há duas décadas, enquanto as colheitas de “tengusa”, uma alga essencial para o prato local “tokoroten”, despencaram. O aquecimento das águas invernais, de 13°C para cerca de 16°C, permite que organismos tropicais sobrevivam e se reproduzam, competindo com as espécies nativas.

As consequências vão além da ecologia, atingindo o coração da sociedade. A perda de rentabilidade da pesca está a acelerar o despovoamento das zonas costeiras, com os jovens a optarem por empregos nas grandes cidades. Em Ito, na Península de Izu, a população diminuiu mais de 11% na última década. O conhecimento ancestral sobre épocas de pesca e preparo de pratos regionais está a tornar-se obsoleto, ameaçando tradições culturais.

Face a esta realidade, surgem estratégias de adaptação. Grandes cadeias de “sushi” como a Kura Sushi estão a redefinir as suas cadeias de abastecimento, a estabelecer contratos de compra garantida com os pescadores e a introduzir novos tipos de peixe nos seus menus a preços baixos para familiarizar os clientes. A nível governamental e científico, esforços concentram-se no desenvolvimento de variedades de aquicultura resistentes a águas mais quentes, na criação de mapas de habitat futuros para algas e na monitorização constante das alterações nas correntes. Contudo, os especialistas alertam para a imprevisibilidade do futuro, uma vez que os modelos climáticos do passado não conseguiram prever as mudanças extremas que já estão a acontecer.

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