Arroz atinge valores históricos no Japão, com aumento de 20 vezes nas importações

Preço do arroz atinge patamar histórico no Japão em meio à crise prolongada

Chamada de ‘Reiwa Rice Turmoil’, a situação que começou em 2024 persiste, levando a importações recordes e mudanças no consumo

O Japão enfrenta uma crise prolongada no preço do arroz, seu alimento básico, com valores atingindo níveis históricos. A situação, denominada “Reiwa Rice Turmoil”, começou no verão de 2024 e se estendeu por todo o ano de 2025, impactando profundamente consumidores, produtores e toda a cadeia de suprimentos. Mesmo com a liberação de arroz dos estoques governamentais, os preços permanecem teimosamente altos, forçando uma mudança de hábitos e levando o país a um aumento sem precedentes na importação do grão.

Os principais fatores por trás da crise foram duas colheitas consecutivas ruins em 2022 e 2023, que esgotaram os estoques, e um aumento inesperado no consumo. A guerra na Ucrânia, por exemplo, elevou o preço mundial do trigo, levando muitos japoneses a substituírem pães e massas por arroz. A combinação desses fatores criou um déficit significativo na oferta, que as safras seguintes não foram suficientes para corrigir totalmente.

Mercado se adapta com importações e até ‘crane games’

Diante da disparada dos preços, japoneses e empresas buscaram alternativas criativas e, por vezes, desesperadas. Empresas privadas devem importar cerca de 20 vezes mais arroz no ano fiscal de 2025 em comparação com o ano anterior. Grandes tradings como Kanematsu e atacadistas como Shinmei aumentaram significativamente suas compras no exterior, principalmente dos Estados Unidos. O arroz importado, mesmo com uma tarifa de 341 ienes por quilo, chega ao consumidor final por preços consideravelmente mais baixos que o arroz japonês.

No varejo, redes como Aeon e Seiyu passaram a vender misturas de arroz americano e japonês, ou arroz de Taiwan, a preços mais acessíveis. Em um reflexo incomum da crise, até mesmo “crane games” (jogos de garra) em centros de entretenimento passaram a oferecer pacotes de arroz como prêmios. Em um estabelecimento em Kawagoe, lotes de 900 gramas de arroz Koshihikari pré-lavado se esgotaram em poucos dias, mostrando como a necessidade básica se tornou um item de desejo.

Respostas do governo e debate sobre políticas agrícolas

Para tentar conter a crise, o governo japonês liberou, pela primeira vez com o objetivo de resolver uma escassez de circulação, parte do seu arroz estocado. No entanto, a medida inicial, realizada por meio de licitações a partir de março, foi criticada por sua lentidão, já que o grão passava por uma longa cadeia de intermediários antes de chegar aos supermercados. Uma mudança na estratégia, passando a vender o arroz estocado diretamente aos varejistas, acelerou a distribuição.

A crise reacendeu o debate sobre as políticas agrícolas de longo prazo do Japão, especialmente a política de redução de área plantada, vigente há mais de 50 anos para evitar excesso de oferta. Críticos argumentam que, se as áreas atualmente usadas para outros fins fossem destinadas ao arroz para consumo, a produção poderia ser milhões de toneladas maior. Além disso, as altas tarifas de importação, que chegam a 778%, tornaram-se um ponto de atrito nas negociações comerciais com os Estados Unidos.

Perspectivas para 2026 continuam incertas

Apesar de uma previsão de colheita maior para 2025, os preços no varejo continuam a subir, estabelecendo novos recordes. Em novembro, a média nacional para um pacote de 5 kg atingiu 4.335 ienes, o valor mais alto desde o início do monitoramento. Analistas indicam que pode ser necessário mais de um ano de produção estável e aumento dos estoques para que os preços comecem a cair de forma significativa. Enquanto isso, a primeira-ministra Sanae Takaichi estuda um pacote de estímulo econômico que pode incluir até vouchers de racionamento de arroz para famílias vulneráveis, sinalizando que o governo prevê a continuidade do problema.

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