“Não vim escutar sua voz”: debate sobre cantar em shows divide fãs no Japão
Incidente em concerto da banda B’z reacende discussão sobre até onde vai a liberdade do público e o respeito ao próximo
Um show da consagrada banda de rock japonesa B’z, realizado no início de dezembro no Tokyo Dome, se tornou o epicentro de um acalorado debate nas redes sociais do país. O motivo foi um espectador que, entusiasmado, cantou em voz alta e continuamente durante pelo menos seis músicas, ofuscando a voz do vocalista Koshi Inaba para as pessoas à sua frente. Quando solicitado a baixar o volume, o homem respondeu, rindo, que “show é um lugar para as pessoas se divertirem livremente”, deixando a pessoa que reclamou ainda mais frustrada.
A experiência, compartilhada no X (antigo Twitter), viralizou rapidamente, acumulando milhões de visualizações e dividindo a opinião de milhares de internautas. Enquanto muitos se solidarizaram com a fã perturbada, afirmando que pagaram caro para ouvir os artistas e não a voz desafinada de um estranho, outros defenderam que cantar junto é parte intrínseca da experiência de um concerto ao vivo. A polêmica jogou luz sobre uma questão delicada e culturalmente sensível no Japão: qual é a etiqueta correta em um show?
Entre a participação e a contemplação: um abismo cultural
O debate revela uma cliva entre diferentes mentalidades sobre o consumo de música. De um lado, está a perspectiva, comum em muitos países, do show como uma experiência coletiva e participativa, onde cantar, pular e se emocionar em voz alta é incentivado. Fãs citam exemplos de concertos de bandas britânicas como Oasis, onde o público canta junto por horas a fio, criando uma atmosfera similar à de um grande pub, ou de artistas brasileiros, onde a plateia se une em coro desde as primeiras notas.
Do outro lado, persiste no Japão uma tradição mais voltada para a apreciação e o respeito pela performance artística. Músicos japoneses renomados, como o cantor e compositor Tatsurō Yamashita, já brincaram publicamente dizendo a fãs barulhentos: “Eu não vim ouvir você cantar”. Essa postura reflete uma cultura em que a música é frequentemente tratada como uma arte a ser ouvida com atenção, similar à etiqueta observada nos tradicionais jazz kissas (cafés de jazz), onde o silêncio reverencial para ouvir o som de alta fidelidade é a norma.
A visão de quem está no palco: entusiasmo sim, mas com TPO
Para entender a complexidade do assunto, a perspectiva de quem está no palco é crucial. Um guitarrista profissional ativo no cenário musical japonês, que prefere ser identificado apenas como “K”, deu sua opinião franca sobre o tema. Ele inicia deixando claro que valoriza profundamente o entusiasmo do público. “Cantar junto, por si só, não é má educação. Eu aprecio quando os fãs querem cantar comigo e me chamar”, disse, lembrando seus tempos de banda desconhecida, quando ninguém fazia isso.
No entanto, ele faz uma ressalva importante: o contexto é tudo. Em canções mais calmas, vozes altas ou conversas paralelas da plateia podem atrapalhar severamente a concentração e a performance. Sua opinião muda radicalmente dependendo do tipo de evento. Em casas de show com várias bandas na noite, onde o clima é naturalmente mais caótico e o público é diverso, ele acha natural que o comportamento também seja mais livre. Já em shows de um único artista, especialmente em grandes arenas como o Tokyo Dome, a dinâmica é outra.
“As pessoas que vão ver uma atração única são aquelas que gostam especificamente daquele artista”, explica o guitarrista. “O local se torna um espaço onde os fãs fazem parte do mundo que o artista criou e ajudam a construí-lo juntos.” Nesses casos, a forma como o público desfruta do show está intrinsecamente ligada à identidade que o artista deseja transmitir, e a performance é planejada com isso em mente.
O veredito final: TPO é a chave
O conceito que surge como ponto de concordância entre as diferentes visões é o famoso “TPO” – Tempo, Lugar e Ocasião. Para o guitarrista K, o cerne do debate atual tem mais a ver com isso do que com uma regra rígida de etiqueta. “É destrutivo ignorar o tipo de atmosfera e performance afirmando indiscriminadamente que gritar e cantar junto são proibidos”, argumenta.
Ele aplica esse princípio ao caso do show do B’z. Como fã e artista, ele admira o entusiasmo do homem que cantou. Porém, ao se colocar no lugar de outro espectador, considerando o tipo de show (uma grande arena, com produção cuidadosa e um público que busca ouvir a técnica vocal única de Koshi Inaba), ele avalia que cantar em voz alta durante várias músicas seguidas pode ser deslocado. “Pode ser embaraçoso ou dar a sensação de que somos de planetas diferentes”, conclui.
A discussão deixa claro que, no fim, não existe um manual universal. O que define o comportamento adequado é uma leitura sensível do ambiente compartilhado. Enquanto alguns defendem que a diversão individual não deve sobrepujar o direito alheio de aproveitar o espetáculo, outros pregam que a espontaneidade é a alma do rock. O consenso, se é que existe um, parece ser o de que a melhor regra de etiqueta para qualquer show, em qualquer lugar do mundo, é a empatia e a percepção de que a experiência é coletiva.
Acompanhe mais atualizações no Japão em Pauta.






