Sextorsão dispara no Japão, com vítimas majoritariamente masculinas e cada vez mais jovens
Chantagem sexual online registra aumento de mais de quatro vezes em dois anos, enquanto especialistas alertam para subnotificação e dificuldades legais
O Japão enfrenta uma epidemia silenciosa de sextorsão, a chantagem que utiliza imagens ou vídeos íntimos para extorquir dinheiro ou mais conteúdo sexual das vítimas. Dados da organização não governamental PAPS, que oferece suporte a vítimas de violência sexual, revelam que, até 26 de novembro de 2025, foram registradas 2.200 consultas relacionadas ao crime. O número representa um aumento superior a quatro vezes em comparação com todo o ano fiscal de 2023, quando foram contabilizados 528 casos, e supera também as 1.864 consultas de 2024.
A sextorsão se manifesta principalmente de duas formas: a financeira, onde criminosos exigem pagamento sob a ameaça de divulgar o material íntimo; e a por dominação, geralmente praticada por parceiros ou conhecidos que buscam controle sobre a vítima, exigindo mais imagens ou atos sexuais. Embora tradicionalmente associada a mulheres, a modalidade financeira tem como alvo principal homens, que hoje representam cerca de 70% das vítimas identificadas pela PAPS.
Os adolescentes e jovens adultos constituem o grupo mais vulnerável. A ONG destaca que um número significativo de vítimas tem menos de 18 anos. Especialistas apontam que o problema se agrava durante as férias escolares, quando os jovens passam mais tempo em casa usando smartphones e redes sociais. Muitos casos começam em aplicativos de aprendizado de inglês, em redes sociais como Instagram e X (antigo Twitter), ou em plataformas de jogos online, onde criminosos, muitas vezes localizados no exterior, iniciam conversas que evoluem para abordagens sexuais e, posteriormente, para ameaças.
Kazuna Kanajiri, diretora-chefe da PAPS, explica que a excitação sexual dos jovens é explorada, prejudicando sua capacidade de julgamento. Ela é enfática ao alertar: “Uma vez que as imagens são enviadas, é impossível deletá-las. Nunca as envie”. A especialista também ressalta que muitos homens nem sequer percebem que foram sexualmente vitimizados, o que contribui para a subnotificação.
O cenário legal para combater a prática ainda apresenta desafios. Em julho de 2023, entrou em vigor uma revisão do Código Penal que pune a solicitação de imagens explícitas a menores de 16 anos. No entanto, até o final daquele ano, apenas oito casos foram descobertos em todo o país, indicando uma grande lacuna entre a ocorrência e a persecução penal. As autoridades policiais afirmam que investigam ativamente as denúncias, mas muitas vezes esbarram na falta de provas, já que é comum as vítimas, em meio ao desespero e à vergonha, apagarem todas as mensagens e evidências do contato com o chantagista.
Além do pagamento em dinheiro, os criminosos frequentemente exigem cartões-presente (como Apple Gift Card), pagamentos via aplicativos (PayPay) ou criptomoedas. Um fenômeno em crescimento é o uso de inteligência artificial para criar deepfakes pornográficos a partir de fotos comuns das vítimas obtidas em suas redes sociais, que são então usados para a chantagem, mesmo que a pessoa nunca tenha compartilhado conteúdo íntimo real.
Diante do aumento alarmante de casos, as recomendações das autoridades e grupos de apoio são claras e diretas: nunca envie imagens íntimas, independentemente do nível de confiança na outra pessoa; nunca pague o valor exigido; interrompa imediatamente qualquer contato com o chantagista; bloqueie-o em todas as plataformas; e, o mais importante, não enfrente a situação sozinho – denuncie à polícia e busque ajuda de organizações especializadas. A mensagem central é que o silêncio é a maior arma do agressor, e buscar apoio é o primeiro passo para interromper o ciclo de abuso.
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