Belém reacende as luzes do Natal após dois anos de silêncio imposto pela guerra
Sob um cessar-fogo frágil, a cidade onde Jesus nasceu retoma suas tradições festivas como um símbolo de esperança, enquanto enfrenta uma profunda crise econômica
Sob um céu azul, o som de gaitas de foles e tambores encheu a Praça da Manjedoura em Belém nesta quarta-feira, marcando o primeiro Natal verdadeiramente festivo da cidade em mais de dois anos. Após um período de luto e cancelamentos durante a guerra em Gaza, a cidade considerada o berço do cristianismo reacendeu sua gigantesca árvore de Natal, um ato carregado de simbolismo para uma comunidade ansiosa por normalidade.
A decisão de retomar as celebrações públicas, incluindo a tradicional procissão de escoteiros, não foi tomada sem conflito. O prefeito de Belém, Maher Canawati, admitiu a complexidade de celebrar enquanto o sofrimento persiste em Gaza, onde vive uma pequena comunidade cristã com parentes na cidade. “Alguns podem dizer que não é apropriado e outros dirão que é”, afirmou o prefeito, explicando que, em seu coração, acredita que o Natal nunca deve ser interrompido, pois representa a “luz da esperança”.
O renascimento festivo é diretamente atribuído ao cessar-fogo em vigor desde outubro. Nos dois anos anteriores, as igrejas locais pediram que os fiéis evitassem atividades festivas desnecessárias, focando apenas no significado espiritual da data e em orações pela paz. A praça principal, que antes abrigava um presépio com o menino Jesus cercado por entulho e arame farpado em homenagem a Gaza, voltou a ser dominada pela árvore iluminada.
O Cardeal Pierbattista Pizzaballa, principal líder católico na Terra Santa, chegou a Belém trazendo saudações da comunidade cristã de Gaza. Diante da multidão, declarou: “Nós, todos juntos, decidimos ser a luz, e a luz de Belém é a luz do mundo”. Apesar do clima de alegria, o impacto da guerra na Cisjordânia ocupada é agudo. Cerca de 80% dos residentes de Belém dependem de negócios ligados ao turismo, setor que entrou em colapso nos últimos anos. O desemprego na cidade disparou de 14% para 65%, e o prefeito estima que cerca de 4.000 pessoas tenham deixado a cidade em busca de trabalho.
Para famílias locais, a celebração tem um gosto especial de resiliência. “Hoje é um dia de alegria, um dia de esperança, o começo do retorno da vida normal aqui”, compartilhou Georgette Jackaman, uma guia turística que não trabalha há mais de dois anos. Para seus dois filhos pequenos, esta é a primeira celebração natalina real de suas vidas. Embora a presença de turistas estrangeiros ainda seja modesta, comparada aos anos anteriores à pandemia e à guerra, qualquer sinal de retorno é recebido com otimismo.
A celebração, porém, ocorre em um contexto de extrema fragilidade. O cessar-fogo em Gaza permanece incerto, e as tensões na Cisjordânia estão altas. Moradores relatam que a sensação de viver em uma “grande prisão” persiste, devido aos postos de controle israelenses e às restrições de movimento. Enquanto acendem as luzes de Natal, as pessoas em Belém dizem estar rezando por uma paz duradoura e pelo retorno dos visitantes ao local onde acreditam que o Natal começou.
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