Corvos em Tóquio: população reduzida a 20% após ações governamentais

Da praga urbana ao controle: a drástica redução dos corvos em Tóquio

População caiu 84% desde o ano 2000, transformando um pesadelo urbano em caso de estudo sobre convivência

As ruas de Tóquio testemunharam uma transformação silenciosa, mas notável, nas últimas duas décadas. Os corvos, que se tornaram uma verdadeira praga urbana no fim dos anos 1990 e início dos anos 2000, hoje são vistos em números drasticamente reduzidos. Dados de um levantamento recente apontam que a população dessas aves na capital japonesa caiu para apenas 20% do pico registrado por volta do ano 2000.

No auge do problema, os corvos eram uma fonte constante de conflitos. Eles rasgavam sacos de lixo deixados nas calçadas, espalhando restos de comida pelas ruas de distritos movimentados como Ginza. Os moradores sofriam com ataques, especialmente durante a temporada de reprodução, e as queixas às autoridades municipais chegavam a milhares por ano. A situação era tão grave que chegou a haver registros de aves atacando pequenos animais de estimação.

O banquete de lixo que alimentou a explosão populacional

O crescimento descontrolado da população de corvos está diretamente ligado aos hábitos de consumo e descarte da metrópole. Com o rápido crescimento econômico dos anos 1980 e 1990, a quantidade de lixo gerada em Tóquio disparou. O lixo doméstico e, principalmente, os resíduos alimentares de restaurantes e estabelecimentos comerciais, dispostos em sacos transparentes ou semip transparentes nas calçadas para coleta, tornaram-se um banquete sempre disponível para as aves. Um estudo apontou que a população de corvos em três grandes dormitórios da cidade saltou de 6.737 em 1985 para mais de 18.600 no ano 2000.

A guerra declarada e as estratégias vencedoras

Em 2001, pressionado pelo crescente número de queixas, o então governador de Tóquio, Shintaro Ishihara, criou uma força-tarefa para lidar com o problema. A estratégia adotada foi dupla: atacar a fonte de alimento e reduzir diretamente o número de aves. As autoridades municipais implementaram a coleta noturna de lixo, antes do amanhecer, para que os resíduos não ficassem expostos durante o dia. A população e os comerciantes foram orientados a usar sacos de lixo opacos, difíceis de serem furados pelos bicos afiados, e a cobrir os pontos de coleta com redes protetoras.

Paralelamente, um programa de captura foi colocado em prática, utilizando grandes gaiolas-armadilha. Medidas criativas também foram testadas, como o uso de sacos revestidos com substâncias de gosto picante para desencorajar as aves. O resultado foi um declínio constante. Em 2020, estimava-se que a população havia caído para cerca de 11.000 indivíduos, uma redução de cerca de 70% em relação a 2001. Dados preliminares de um censo de final de 2025 apontam para uma queda de 84% desde o pico do ano 2000.

Menos lixo, menos corvos: uma lição ambiental

Especialistas afirmam que a redução no volume de resíduos foi um fator tão ou mais importante que as capturas. Após o estouro da bolha econômica japonesa e com a introdução de taxas para a coleta de lixo comercial, a quantidade total de resíduos gerados nos 23 bairros centrais de Tóquio caiu significativamente, de 3,52 milhões de toneladas em 2001 para 2,45 milhões em 2024. Com menos comida fácil disponível, a capacidade de reprodução e sobrevivência das aves diminuiu. Um pesquisador da Universidade de Tóquio resume: “Os corvos estão à mercê do comportamento humano”.

Equilíbrio ecológico e um futuro cauteloso

O sucesso no controle trouxe alívio, mas também levantou questões sobre o papel ecológico dos corvos na cidade. Essas aves são scavengers naturais, consumindo carcaças de pequenos animais e ajudando na dispersão de sementes. Um declínio muito acentuado poderia ter efeitos colaterais no ecossistema urbano. As autoridades de Tóquio reconhecem que a população agora retornou a um nível “apropriado”, semelhante ao período anterior ao boom, mas mantêm as medidas de vigilância. O temor de um novo aumento, caso as práticas de manejo de resíduos sejam relaxadas, faz com que a estratégia de controle continue ativa, mostrando que a convivência em uma megacidade requer manejo constante.

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