Decisão histórica marca retorno do país à energia atômica

Japão dá passo final para reiniciar a maior usina nuclear do mundo

Quase 15 anos após o desastre de Fukushima, país retoma operações em Kashiwazaki-Kariwa para reduzir dependência de combustíveis fósseis

O Japão concluiu o processo que permitirá a retomada das operações da maior usina nuclear do mundo, a Kashiwazaki-Kariwa, localizada na província de Niigata. A decisão ocorre quase 15 anos após o terremoto e tsunami de 2011 que levaram ao desastre na usina de Fukushima Daiichi, o pior acidente nuclear desde Chernobyl. A assembleia da província de Niigata aprovou um voto de confiança no governador Hideyo Hanazumi, que havia apoiado a retomada no mês passado, removendo o último obstáculo político para a reativação.

A usina de Kashiwazaki-Kariwa representa um marco significativo por ser a primeira a ser reativada sob operação da Tokyo Electric Power Company (TEPCO), mesma empresa que administrava Fukushima. A TEPCO considera reativar o primeiro dos sete reatores da usina já em janeiro. Segundo estimativas do Ministério do Comércio do Japão, apenas esse primeiro reator poderá aumentar o fornecimento de eletricidade para a região de Tóquio em uma porcentagem significativa.

A decisão reflete uma mudança estratégica do governo japonês para fortalecer a segurança energética do país. A primeira-ministra Sanae Takaichi apoia a retomada das atividades nucleares para reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados, que representam a maior parte da geração de eletricidade do Japão. No ano passado, o país gastou valores astronômicos com a importação de gás natural liquefeito e carvão, um custo que pesa consideravelmente na economia nacional. Apesar da população em declínio, o Japão prevê um aumento na demanda por energia na próxima década, impulsionado pela expansão de data centers de inteligência artificial.

Contudo, a retomada enfrenta resistência significativa da população. Uma pesquisa recente revelou que a maioria dos moradores de Niigata não acredita que as condições para a retomada tenham sido atendidas, e uma parcela ainda maior expressa preocupação com a TEPCO operando a usina. Durante a votação na assembleia, cerca de 300 manifestantes, em sua maioria idosos, se reuniram em frente ao prédio em protesto, portando cartazes com mensagens contra a energia nuclear e em apoio a Fukushima.

Entre os manifestantes estava Ayako Oga, uma agricultora e ativista antinuclear de 52 anos que se estabeleceu em Niigata depois de fugir da área ao redor da usina de Fukushima em 2011. Como muitos dos evacuados, ela ainda sofre com sintomas semelhantes ao estresse pós-traumático e vê a retomada como uma nova ameaça. “Conhecemos em primeira mão o risco de um acidente nuclear e não podemos ignorá-lo”, afirmou.

Para enfrentar essa desconfiança, a TEPCO prometeu investir um valor considerável na prefeitura de Niigata ao longo da próxima década, buscando conquistar o apoio dos moradores. A empresa afirma estar comprometida em nunca repetir um acidente como o de Fukushima. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) recentemente concluiu inspeções no local da usina de Fukushima e declarou que o Japão está cumprindo as normas internacionais de segurança em relação ao processo de descarga de água tratada.

Especialistas do setor energético veem a aceitação pública da retomada de Kashiwazaki-Kariwa como um marco crucial para o Japão alcançar suas metas energéticas. O país estabeleceu o objetivo de dobrar a participação da energia nuclear em sua matriz elétrica até 2040, como parte de seus compromissos de descarbonização. O governador Hanazumi, mesmo apoiando a retomada, expressou o desejo de que o Japão eventualmente reduza sua dependência da energia nuclear, afirmando: “Quero ver uma era em que não precisemos depender de fontes de energia que causam ansiedade”.

Acompanhe mais atualizações no Japão em Pauta.

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *