Declaração de assessor gera onda de protestos e reacende debate sobre princípios antinucleares do Japão.

Japão em crise após declaração pró-armas nucleares de assessor de segurança

Comentário em conversa informal com jornalistas reacende debate histórico e gera onda de protestos internos e preocupação internacional

Uma declaração informal de um alto assessor de segurança do governo japonês, sugerindo que o país deveria possuir armas nucleares, desencadeou uma forte crise política e uma onda de protestos, reavivando um dos debates mais sensíveis da sociedade japonesa. O comentário, feito a jornalistas, foi imediatamente condenado por sobreviventes das bombas atômicas, assembleias locais e políticos da oposição, enquanto a Coreia do Norte emitiu um severo alerta sobre as ambições do Japão.

O funcionário, integrante da equipe do Gabinete da primeira-ministra Sanae Takaichi e envolvido na formulação da política de segurança, afirmou a repórteres, em uma conversa off-the-record na quinta-feira, que “penso que deveríamos possuir armas nucleares” e que “no final, só podemos contar conosco próprios”. A revelação do comentário pela agência Kyodo News gerou uma reação imediata e furiosa de grupos de sobreviventes (hibakusha) das cidades de Hiroshima e Nagasaki. Representantes dessas organizações classificaram a fala como “absolutamente inaceitável” e que “nega o papel do Japão como uma ponte” no regime de não proliferação nuclear.

Em um movimento histórico, a Assembleia Provincial de Hiroshima aprovou por unanimidade na segunda-feira uma declaração escrita urgindo o governo a manter os Três Princípios Não Nucleares. Este é o primeiro parecer oficial das assembleias de Hiroshima ou Nagasaki sobre uma possível revisão desses princípios, que proíbem a posse, produção e introdução de armas nucleares no país. “É nosso dever, como o único país que sofreu bombardeios atômicos, continuar nos esforçando para a realização de um mundo sem armas nucleares”, dizia a declaração. O governador da província de Kumamoto, Takashi Kimura, também criticou publicamente a declaração, classificando-a como “extremamente inapropriada”.

No cenário político, a oposição reagiu com vigor. Yoshihiko Noda, líder do Partido Democrático Constitucional, principal força de oposição, exigiu a demissão do funcionário, argumentando que “é extremamente grave que alguém com tais opiniões seja próximo da primeira-ministra”. Entretanto, dentro do próprio Partido Liberal Democrático (PLD), no poder, vozes influentes abriram espaço para o debate. Itsunori Onodera, ex-ministro da Defesa e chefe do conselho de pesquisa de segurança do partido, disse que o Japão precisa discutir o futuro de seus princípios não nucleares, destacando que a dependência do “guarda-chuva nuclear” dos EUA é um dos temas a ser considerado.

A reação internacional veio principalmente da Coreia do Norte. O Ministério das Relações Exteriores norte-coreano emitiu um comunicado afirmando que a ambição nuclear do Japão “deve ser impedida a todo o custo” e que tal movimento “provocaria uma grande catástrofe para a humanidade”. Pyongyang acusou o Japão de revelar sua “ambição de longa data” de se nuclearizar.

Em meio à crescente polêmica, o governo japonês se apressou em reafirmar sua política oficial. O porta-voz do governo, Minoru Kihara, e o ministro das Relações Exteriores, Toshimitsu Motegi, garantiram que o país mantém os Três Princípios Não Nucleares e sua missão de liderar os esforços internacionais por um mundo livre de armas nucleares. A crise ocorre em um contexto no qual o governo Takaichi, conhecido por posturas mais duras em segurança nacional, já havia sinalizado a intenção de revisar os documentos-chave de defesa do país até o final de 2026, um processo que pode incluir debates sobre os princípios nucleares.

Acompanhe mais atualizações no Japão em Pauta.

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *