Demanda global por matcha impulsiona exportações e causa escassez no mercado japonês

Matcha japonês atinge recorde de exportação em meio a escassez e alta de preços

Fenômeno global de consumo coloca pressão sobre a produção tradicional e afasta o produto do mercado doméstico

O Japão registrou um marco histórico no comércio exterior do seu chá. Dados oficiais mostram que, entre janeiro e outubro de 2025, o país exportou 10.084 toneladas de chá, um volume 44% superior ao do mesmo período do ano anterior e o maior em 71 anos[citation:4]. Esse crescimento explosivo é impulsionado pela febre global pelo matcha, um pó de chá verde finíssimo tradicional do Japão. No entanto, enquanto as vendas para o exterior batem recordes, o mercado interno enfrenta escassez do produto e uma forte alta nos preços de todos os tipos de chá verde.

Os Estados Unidos se consolidaram como o principal destino, responsável por cerca de 3.497 toneladas, ou aproximadamente um terço de todas as exportações japonesas de chá[citation:4]. A União Europeia também apresentou um crescimento extraordinário, com o valor das exportações de chá em pó (categoria que inclui o matcha) mais que triplicando em alguns meses[citation:7]. A combinação da popularidade do matcha em redes sociais, do boom do turismo no Japão pós-pandemia e da percepção de que é um produto saudável criou uma demanda que a produção tradicional não consegue atender com rapidez[citation:1][citation:6].

Produção artesanal e clima adverso limitam a oferta

A dificuldade em aumentar a produção para atender à demanda global está enraizada na própria natureza do matcha de qualidade. Sua matéria-prima, a tencha, requer um cultivo especializado, com as folhas sendo sombreadas por semanas antes da colheita para desenvolver o sabor umami[citation:1][citation:6]. O processo final de moagem das folhas secas é lento e meticuloso, feito em moinhos de pedra que produzem apenas cerca de 40 gramas de matcha por hora[citation:1]. Essa cadeia de produção artesanal e intensiva em mão de obra não permite expansões rápidas.

Além das limitações técnicas, os produtores enfrentam desafios climáticos e demográficos. Ondas de calor recordes prejudicaram as safras em regiões-chave como Kyoto, que responde por cerca de um quarto da tencha do país[citation:1][citation:8]. Em 2025, a produção da primeira colheita de chá em Shizuoka, outra importante região produtora, caiu 19% em relação ao ano anterior[citation:9]. Paralelamente, o setor sofre com o envelhecimento dos agricultores e a falta de sucessão familiar, o que reduz a força de trabalho qualificada[citation:1][citation:9].

Preços disparam no atacado e no varejo

A tensão entre oferta restrita e demanda crescente tem um efeito direto e expressivo nos preços. No principal leilão de chá de Uji, em Kyoto, o preço médio por quilo da tencha (a folha não moída usada para fazer matcha) disparou. O valor da tencha de alta qualidade, colhida manualmente, mais que dobrou, saltando de 20.024 ienes por quilo em 2024 para 47.096 ienes em 2025[citation:8].

No mercado doméstico, os consumidores já sentem o impacto. Varejistas em áreas turísticas como Uji precisaram impor limites de compra, permitindo apenas uma lata de matcha por cliente, devido ao esgotamento rápido dos estoques[citation:1]. A escassez de folhas de chá verde também afeta produtos populares, como chás prontos para beber. Grandes empresas como a Coca-Cola Bottlers Japan e a Ito En anunciaram aumentos de preço para suas marcas Ayataka e Oi Ocha, respectivamente[citation:1]. Em outubro, os preços das folhas de chá verde para processamento chegaram a ficar momentaneamente dez vezes mais altos do que no ano anterior.

Setor se adapta e busca preservar a tradição

Diante do cenário de escassez, a indústria e as associações do setor estão tomando medidas para equilibrar o mercado. A Associação Global do Chá Japonês tem promovido a conscientização sobre os diferentes tipos de matcha, incentivando o uso de variedades de qualidade culinária, mais abundantes e acessíveis, para receitas e bebidas como lattes, e reservando o matcha de grau cerimonial, mais raro e caro, para o consumo tradicional[citation:1]. Paralelamente, para proteger a autenticidade e o valor da marca, a Câmara do Chá da Província de Kyoto solicitou o registro da tencha como Indicação Geográfica (IG), um selo que garantiria a origem e o padrão de qualidade do produto[citation:3].

Enquanto alguns analistas acreditam que os preços elevados podem persistir no curto e médio prazo devido às limitações de produção[citation:8], outros veem uma possível estabilização no futuro. Executivos do setor, como o presidente da Ito En, Daisuke Honjo, reconhecem a incerteza, afirmando que “é difícil prever se o boom do matcha continuará, mas os preços devem permanecer altos por enquanto”[citation:1]. Apesar dos desafios, muitos produtores veem na popularidade global uma oportunidade valiosa para que mais pessoas no mundo conheçam e apreciem a rica cultura do chá japonês.

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