Especialista alerta que ursos adiam hibernação ao encontrar alimento em residências

Urbano demais para hibernar: comida humana está alterando o ciclo dos ursos no Japão

Atraso na hibernação e recorde de ataques em pleno inverno acendem alerta sobre convivência com a vida selvagem

Um fenômeno preocupante tem desafiado a rotina natural da vida selvagem japonesa: ursos que descobriram fontes de alimento em áreas residenciais estão adiando sua hibernação, permanecendo ativos durante o inverno e aumentando drasticamente os encontros, e muitas vezes confrontos, com seres humanos. Especialistas alertam que a disponibilidade de comida, como frutas em árvores abandonadas e resíduos orgânicos, está reescrevendo o comportamento destes animais, com consequências graves para a segurança pública.

Naoki Onishi, especialista em ecologia animal do Instituto de Pesquisa Florestal e de Produtos Florestais, explica que a hibernação é desencadeada pela escassez de comida, não pela queda da temperatura. “Ursos individuais que estão ativos atualmente aprenderam que ainda há comida nas habitações humanas. Com alimento disponível, os ursos demoram a entrar em hibernação”, afirma o pesquisador. Essa mudança de comportamento tem mantido os animais próximos a vilas e cidades em meses em que normalmente estariam dormindo, resultando em um número anormal de avistamentos e ataques mesmo em dezembro e janeiro.

Os números refletem a crise. Somente entre abril e novembro deste ano, um recorde de 13 pessoas morreu em ataques suspeitos de ursos em todo o país, com o número total de ataques chegando a 197. Apenas nas primeiras semanas de dezembro, ataques a um casal que entregava jornais em Toyama e a uma mulher em Iwate reforçaram o alerta. Até 17 de dezembro, pelo menos dez ursos foram mortos em “tiroteios de emergência” autorizados por municípios em várias prefeituras. Em Osaki, uma cidade no nordeste conhecida por suas fontes termais, as autoridades declararam estado de emergência devido aos ursos, que deve permanecer até o final do ano, depois de registrar 400 avistamentos em 2025, contra menos de 100 no ano anterior.

O problema é multifacetado. Por um lado, safras ruins de alimentos naturais, como bolotas e nozes de faia – agravadas por verões extremamente quentes –, deixam os ursos famintos e os forçam a ampliar sua busca por comida. Por outro, o despovoamento e o envelhecimento das áreas rurais criam um ambiente perfeito para esses animais se aproximarem. Pomares de caqui e castanha abandonados, terrenos baldios com vegetação alta e lixo mal acondicionado tornam-se buffet gratuito e seguro para os ursos. “Eles são animais espertos”, disse um oficial de Osaki. “Se encontram algo bom para comer, como um caqui doce, em um lugar específico, eles se lembram e continuam voltando para mais”.

Diante da emergência, as autoridades estão tomando medidas drásticas. O governador da província de Akita, onde a maioria dos avistamentos foi relatada, convocou as Forças de Autodefesa para ajudar a capturar ursos. As leis de armas de fogo, tradicionalmente rígidas no Japão, foram relaxadas nos últimos meses para permitir que caçadores atirem para matar em áreas urbanas em caso de emergência, e a polícia está sendo organizada em equipes de rifle para fins de abate.

No entanto, os especialistas enfatizam que a solução de longo prazo vai além do controle populacional imediato. É crucial modificar o ambiente para que ele se torne menos atrativo para os ursos. Onishi e outros especialistas pedem uma ação comunitária coordenada: cortar árvores frutíferas abandonadas, especialmente caquizeiros, manter a grama e os arbustos aparados em terrenos vazios para eliminar pontos de esconderijo e garantir que o lixo, a comida de animais de estimação e outros resíduos orgânicos sejam armazenados com segurança, longe do acesso dos animais. A mensagem é clara: para que os ursos retornem à sua rotina natural de hibernação, os humanos precisam primeiro remover o “cardápio” que os mantém acordados.

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