Black Ox: Uma Meditação Cinematográfica sobre a Busca do Ser
Filme japonês em preto e branco estreia globalmente após passagem por festivais internacionais
Dirigido pelo japonês Tetsuichirô Tsuta, o filme “Black Ox” (Kuro no Ushi) chegou aos cinemas do Japão oferecendo uma experiência contemplativa única. Estrelado pelo renomado ator taiwanês Lee Kang-sheng, a obra é uma adaptação cinematográfica dos “Dez Quadros do Pastor de Bois”, uma série de pinturas e poemas zen budistas do século XV que ilustram as etapas do caminho para a iluminação. O filme, uma co-produção entre Japão, Taiwan e Estados Unidos, teve sua première mundial no Festival Internacional de Cinema de Tóquio no final de 2024 e desde então percorreu circuitos como os festivais de Hong Kong, Melbourne, Jeonju e Torino.
A narrativa acompanha um homem das montanhas, interpretado por Lee Kang-sheng, durante o período da Restauração Meiji no século XIX, quando o Japão passava por uma rápida ocidentalização e unificação cultural. O personagem, um ex-caçador-coletor, vê seu modo de vida tradicional ameaçado e é forçado a descer para as planícies, onde acaba trabalhando em uma fazenda. Sua jornada espiritual se entrelaça com a de um boi negro que ele encontra e lentamente domestica, em uma relação simbiótica que reflete a busca pelo “verdadeiro eu”.
A estrutura do filme é dividida em capítulos que correspondem aos estágios da parábola budista, como “Procurando o Boi”, “Encontrando as Pegadas” e “Domando o Boi”. Tsuta opta por um cinema de ritmo deliberadamente lento e com diálogos mínimos, priorizando a linguagem visual e sonora para transmitir seus temas. A fotografia em preto e branco e no formato 4:3, assinada por Yutaka Aoki, que já colaborou com Tsuta em “The Tale of Iya”, captura com crueza e beleza a paisagem e o labor rural. Uma exceção notável são a cena de abertura e a sequência final, filmadas em cores, marcando uma transição simbólica na jornada do protagonista.
Além do protagonista Lee Kang-sheng – ator fetiche do diretor Tsai Ming-liang, premiado no Festival de Cannes e vencedor do Golden Horse –, o filme conta com uma contribuição póstuma do célebre compositor Ryuichi Sakamoto, responsável pela atmosférica trilha sonora. A produção também tem a assinatura de Shozo Ichiyama, diretor de programação do Festival de Tóquio, e da produtora alemã NiKo Film, conhecida por cinema autoral de festival.
Mais do que uma simples transposição de uma alegoria religiosa, “Black Ox” é lido pela crítica como um comentário sócio-histórico sutil. O filme reflete sobre a violência silenciosa da assimilação cultural e da perda de identidades locais durante a modernização do Japão Meiji. Elementos como a visita de um fotógrafo estrangeiro à vila e a proibição de práticas tradicionais reforçam esse pano de fundo.
Com seu final que convida o espectador a “deixar o cinema e viver no mundo”, “Black Ox” se consolida como uma obra para um público específico, apreciador do cinema contemplativo. A distribuição internacional do filme, especialmente nos Estados Unidos, ainda está sendo negociada.
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