Governo e oposição disputam eleição com promessas de cortar imposto sobre consumo de alimentos

Japão debate zerar imposto sobre alimentos durante campanha eleitoral

Governo propõe medida temporária por dois anos, enquanto nova força de oposição defende fim permanente da tributação

A primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, anunciou que incluirá em sua plataforma eleitoral a proposta de reduzir a zero o imposto sobre consumo de alimentos e bebidas não alcoólicas por um período de dois anos. O anúncio foi feito durante coletiva de imprensa em que ela também confirmou a dissolução da Câmara Baixa do Parlamento e a convocação de eleições antecipadas para 8 de fevereiro. A medida, que atualmente tributa alimentos em 8%, representa uma mudança significativa na posição da líder governista, que anteriormente demonstrava cautela em relação a cortes neste imposto.

A proposta do Partido Liberal Democrático (PLD), que governa o país, encontra respaldo no acordo de coalizão firmado com o Partido da Inovação do Japão em outubro passado. Segundo fontes do governo, caso a coalizão gover- nista vença as eleições, planeja-se apresentar um projeto de reforma tributária incluindo o corte do imposto durante a sessão extraordinária do Parlamento após o pleito, com implementação possível a partir de janeiro de 2027.

Do outro lado do espectro político, a recém-formada Aliança de Reforma Centrista – fusão do Partido Democrático Constitucional com o Komeito – defende a eliminação permanente do imposto sobre consumo de alimentos. O secretário-geral do Komeito, Makoto Nishida, afirmou que qualquer medida temporária colocaria um fardo adicional sobre as empresas, daí a defesa por uma solução definitiva. Esta convergência entre governo e oposição em torno do tema torna a redução tributária uma possibilidade real, independentemente do resultado eleitoral.

A mudança de postura de Takaichi gera questionamentos sobre seu timing, considerando a proximidade das eleições. A primeira-ministra, que em maio de 2025 já havia declarado que “por uma questão de dignidade nacional, a alíquota do imposto sobre consumo de produtos alimentícios deveria ser de 0%”, adotou posteriormente um tom mais cauteloso, chegando a afirmar em dezembro que a medida “não teria um efeito imediato como medida contra a alta dos preços”. Agora, ela justifica a proposta como necessária para aliviar o impacto do custo de vida nas famílias, especialmente para pessoas de baixa e média renda.

Os impactos fiscais da medida são substanciais. A eliminação do imposto de 8% sobre vendas de alimentos reduziria as receitas do governo em aproximadamente 5 trilhões de ienes por ano, valor equivalente ao orçamento anual da educação no Japão. Especialistas expressam preocupação com o efeito sobre as já frágeis finanças públicas do país, que enfrenta custos crescentes com seguridade social devido ao envelhecimento populacional. O temor de deterioração fiscal já fez os rendimentos dos títulos do governo japonês para 10 anos atingirem patamares elevados.

Para financiar a medida sem agravar o endividamento, Takaichi afirmou que não emitirá títulos de déficit, planejando realocar recursos de subsídios, medidas fiscais especiais e receitas não tributárias. A primeira-ministra também mencionou considerar o impacto nos mercados financeiros, incluindo taxas de juros e câmbio, assim como nas finanças locais, já que cerca de 2 trilhões de ienes da receita perdida afetariam diretamente os governos regionais.

O debate sobre o imposto sobre consumo ocorre em um contexto de inflação persistentemente alta no Japão, que ultrapassou a meta de 2% do Banco do Japão há quase quatro anos, com preços de alimentos entre os principais responsáveis pelo aumento. A depreciação do iene frente às principais moedas, que eleva os custos de importação, também contribui para as pressões inflacionárias, situação que tem sido explorada politicamente por todos os partidos.

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