Apagão digital no Irã atinge nível inédito para conter onda de protestos
Bloqueio total de internet completa uma semana e isola país do mundo; regime persegue alternativas como Starlink para evitar vazamento de informações
O Irã atravessa um dos mais severos apagões digitais de sua história, com um bloqueio total da internet que já dura mais de 132 horas e reduziu a conectividade do país a meros 1% de seu nível normal. A medida, imposta pelas autoridades em 8 de janeiro, é uma resposta direta aos protestos massivos que eclodiram no final de dezembro e que, pela primeira vez desde a Revolução de 1979, pedem abertamente por uma mudança de regime. Mais de 85 milhões de iranianos estão mergulhados em um vácuo de informação, com acesso apenas a veículos de comunicação controlados pelo Estado.
Segundo organizações de monitoramento como a NetBlocks, o bloqueio atual é extraordinário não apenas pela duração, mas pela precisão e automatização. Especialistas acreditam que o governo iraniano desenvolveu um verdadeiro “botão de desligar” que permite cortar o acesso de toda a nação de forma imediata. Apesar de o serviço de internet via satélite Starlink ter se tornado uma alternativa crucial para burlar a censura, o regime lançou uma verdadeira “guerra eletrônica”, utilizando bloqueadores de sinal de alta potência para interferir nas conexões, o que resultou na perda de até 80% dos pacotes de dados em algumas áreas.
Os protestos que motivaram a censura extrema começaram em 28 de dezembro, inicialmente impulsionados por uma grave crise econômica e pela desvalorização da moeda. A dinâmica mudou radicalmente após um apelo público de Reza Pahlavi, filho exilado do antigo xá, cujo vídeo nas redes sociais alcançou dezenas de milhões de visualizações. Sua convocatória por mudanças gerou manifestações que se espalharam por todas as 31 províncias do país, combinando ferramentas de organização online com uma liderança clara, um fenômeno considerado inédito.
O apagão digital serve a um duplo propósito do regime: além de impedir a coordenação entre manifestantes, ele tenta ocultar a dimensão da repressão violenta das forças de segurança. Organizações de direitos humanos alertam que o bloqueio fornece cobertura para graves violações. O número exato de mortos é difícil de apurar devido ao blecaute, mas estimativas de grupos de ativistas apontam para centenas, possivelmente milhares, de vítimas, com mais de 10 mil prisões.
Enquanto a população luta para se comunicar, as autoridades iranianas constroem sua narrativa. Líderes do governo, incluindo o presidente Masoud Pezeshkian, acusam os Estados Unidos e Israel de orquestrarem os protestos, descrevendo-os como uma “guerra terrorista”. Paralelamente, o governo ativou a Rede Nacional de Informação, uma internet doméstica controlada que permite o rastreamento de usuários e oferece acesso apenas a sites e serviços aprovados pelo regime, alegando garantir serviços bancários e de compras online.
A Guarda Revolucionária Islâmica indicou que o bloqueio total pode se estender por “uma ou duas semanas”, até que a segurança seja totalmente restabelecida. Enquanto isso, as forças de segurança têm realizado operações porta a porta para apreender antenas parabólicas e equipamentos de comunicação, numa tentativa de eliminar qualquer janela remanescente para o mundo exterior. A comunidade internacional, incluindo a Anistia Internacional, pede o fim imediato do apagão, classificando-o como uma violação grave dos direitos humanos que aprofunda a impunidade em um momento crítico.
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