Japão define meta ambiciosa para 2035, mas ano revela desafios complexos da transição climática
Enquanto o governo anuncia corte de 60% nas emissões, cidadãos entram na Justiça e obstáculos globais mostram que o caminho é mais difícil do que parece
O ano de 2025 não foi fácil para a agenda climática global, e o Japão, como uma das maiores economias do mundo, se encontrou no centro de pressões e paradoxos complexos. Em fevereiro, o governo japonês anunciou uma meta considerada ambiciosa: reduzir suas emissões de gases de efeito estufa em 60% até 2035, em relação aos níveis de 2013, com o objetivo final de atingir zero líquido até 2050. O plano também prevê tornar as fontes renováveis a principal fonte de energia do país até 2040. No entanto, essa decisão oficial foi rapidamente contestada por parte da sociedade que a considera insuficiente.
Mais de 450 cidadãos japoneses ingressaram com uma ação coletiva contra o governo no Tribunal Distrital de Tóquio, argumentando que as metas climáticas nacionais não são fortes o bastante para cumprir o objetivo global de limitar o aquecimento a 1,5°C e, portanto, “ameaçam nossas vidas”. Os demandantes pedem uma indenização simbólica, em um movimento que reflete uma onda global de litígios climáticos. Em resposta, o Secretário-Chefe do Gabinete destacou que as metas são consistentes com o Acordo de Paris e que todo o governo trabalha ativamente para alcançá-las.
Os desafios, porém, vão além das salas de reunião governamentais ou dos tribunais. Um paradoxo silencioso ganhou evidência: a bem-sucedida redução da poluição do ar em várias partes do mundo, incluindo ações na China e no setor de transporte marítimo, tem um efeito colateral indesejado. A diminuição de partículas como o dióxido de enxofre, que refletiam a luz solar, está na verdade acelerando temporariamente o ritmo do aquecimento global e contribuindo para padrões de chuva mais voláteis. É uma constatação difícil que ilustra a complexidade dos sistemas terrestres.
No campo tecnológico, o tão prometido hidrogênio verde, visto como um pilar da descarbonização de indústrias pesadas, enfrentou um ano de realidade dura. Cerca de 60 grandes projetos de hidrogênio de baixas emissões em todo o mundo, incluindo iniciativas de gigantes como BP e ExxonMobil, foram cancelados ou suspensos apenas em 2025. As razões vão desde incertezas sobre políticas públicas e falta de compradores claros até o impacto dos custos crescentes de financiamento e construção.
Apesar dos avanços, a transição para energias renováveis também esbarra em obstáculos financeiros. Um relatório da Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA) confirmou que 91% dos novos projetos renováveis são mais baratos que as alternativas fósseis. No entanto, o custo do capital necessário para construí-los disparou, especialmente nos países em desenvolvimento. Enquanto na Europa se trabalha com taxas de juros em torno de 4%, na África esse custo pode chegar a 12%, inviabilizando economicamente muitos projetos que, tecnicamente, seriam viáveis. Essa disparidade cria um abismo no ritmo da transição energética global.
Para o Japão, que possui a matriz energética mais dependente de combustíveis fósseis entre os países do G7, superar essas barreiras sistêmicas é crucial. O sucesso ou fracasso não apenas definirá seu cumprimento das metas, mas servirá de exemplo para outras nações industrializadas que lutam para equilibrar crescimento econômico, segurança energética e responsabilidade climática em um mundo de desafios interconectados.
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