Navio Chikyu parte para primeiro teste mundial de extração de lama rara em águas profundas

Japão inicia teste histórico de mineração de terras raras no fundo do mar

Navio de pesquisa Chikyu parte para missão pioneira que pode redefinir a segurança de recursos estratégicos do país

Em uma iniciativa que marca um marco na exploração oceânica, o navio de perfuração de águas profundas Chikyu partiu do Porto de Shimizu, em Shizuoka, na manhã desta segunda-feira (12), com destino às águas profundas próximas à ilha de Minamitori. Sua missão é realizar o primeiro teste do mundo para extração contínua de lama rica em terras raras de uma profundidade de aproximadamente seis mil metros. A operação, que faz parte do programa governamental SIP Ocean, é um passo crucial na estratégia japonesa para reduzir sua pesada dependência das importações chinesas desses minerais essenciais para a indústria de alta tecnologia.

A partida do Chikyu, operado pela Agência Japonesa de Ciência e Tecnologia Marinha-Terrestre (JAMSTEC), estava originalmente prevista para o dia 11, mas foi adiada em um dia devido às condições meteorológicas. O navio, reconhecido como a primeira embarcação científica do mundo equipada com um sistema de perfuração por riser, agora segue para um ponto na Zona Econômica Exclusiva do Japão, localizado a cerca de 1.950 quilômetros a sudeste de Tóquio. O plano de testes envolve conectar cerca de 600 tubos especiais, chamados “tubos de levantamento de lama”, para formar um conduto até o leito marinho. O sistema utilizará a pressão da água do mar para trazer a lama à superfície, em um processo que será monitorado por aproximadamente uma semana. A missão completa está programada para durar até 14 de fevereiro.

Este esforço ocorre em um contexto de crescente tensão geopolítica em torno do fornecimento de terras raras. A China, que domina mais de 60% da produção global e cerca de 90% do refino destes elementos, impôs duas ondas de controles de exportação em 2025, citando interesses de segurança nacional. Embora a segunda onda tenha sido suspensa até novembro de 2026, as medidas destacaram a vulnerabilidade das cadeias de suprimentos globais. O Japão importa cerca de 60% de suas terras raras da China, sendo quase totalmente dependente do país para alguns tipos pesados usados em ímãs de motores de veículos elétricos. A busca por fontes alternativas se tornou, portanto, uma prioridade estratégica para o governo japonês e seus aliados ocidentais.

Apesar do potencial estratégico, especialistas alertam para os formidáveis desafios técnicos e econômicos que cercam a mineração em águas profundas. Operar a seis quilômetros de profundidade exige tecnologia capaz de resistir a pressões extremas e correntes marinhas complexas. O diretor do programa, Shoichi Ishii, da JAMSTEC, expressou que o simples fato de conseguir levantar a lama do fundo do mar para o navio já será considerado um sucesso nesta fase de testes. Além disso, análises de viabilidade econômica indicam que o retorno do investimento para projetos de mineração no leito marinho pode levar mais de 15 anos, levantando dúvidas sobre a competitividade comercial frente às importações tradicionais.

O sucesso dos testes atuais é visto como um divisor de águas. Se os resultados forem positivos, a JAMSTEC planeja dar início à mineração em escala real a partir de fevereiro de 2027. A concretização desse projeto colocaria o Japão na vanguarda de uma nova fronteira de recursos e ofereceria um caminho tangível para maior autonomia em um setor crítico para sua economia e segurança nacional.

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