Oleiros de Noto se unem para reerguer tradição de 500 anos após desastre

Cerâmica Suzu: a tradição que o terremoto não apagou

Um ano após o desastre que arrasou o norte da Península de Noto, artesãos se unem para reacender os fornos e uma herança cultural de cinco séculos

No primeiro dia de 2024, um terremoto de magnitude 7,6 atingiu a Península de Noto, na província de Ishikawa, tornando-se o mais forte a atingir a região desde 1885. O tremor, cujo epicentro foi localizado a apenas 6 km ao norte de Suzu, durou cerca de 50 segundos e teve uma intensidade máxima Shindo 7. O abalo sísmico e o subsequente tsunami causaram destruição generalizada, resultando em 691 mortes confirmadas e deixando mais de 1.400 feridos. Entre os símbolos culturais mais afetados estava a cerâmica Suzu, uma tradição local que viu todos os seus 22 fornos artesanais serem reduzidos a escombros.

O desastre foi particularmente devastador para a cidade de Suzu, localizada na ponta da península. Além das perdas humanas, que incluíram pelo menos 151 mortes apenas na cidade, cerca de 40% dos residentes foram deslocados. A infraestrutura ficou gravemente danificada, com a costa sendo levantada em até 4 metros em algumas áreas, deslocando a linha costeira em mais de 200 metros para o mar. Para os oleiros locais, a destruição foi total: anos de trabalho acumulado em peças foram perdidos, e os locais de trabalho, essenciais para sua arte, desapareceram.

O caminho para a recuperação tem sido lento e desafiador. Mesmo um ano após o terremoto, mais de 1.800 pessoas em toda a região de Noto ainda viviam em moradias temporárias de emergência. A reconstrução das casas tem sido dificultada pela escassez de mão de obra na região e pelo alto custo dos materiais. Além disso, em setembro de 2024, fortes chuvas atingiram a península, causando deslizamentos de terra que destruíram novamente casas que estavam sendo reconstruídas, adicionando mais um obstáculo ao processo de recuperação.

Diante da adversidade, a comunidade encontrou força na união e na arte. Oleiros que perderam seus fornos individuais se reuniram para realizar uma queima conjunta no forno municipal sobrevivente, em um ato simbólico de resiliência. Paralelamente, iniciativas comunitárias têm usado a arte como ferramenta de cura e conexão. Trabalhadores sociais, eles próprios desabrigados pelo terremoto, organizam encontros em centros comunitários onde os residentes podem costurar, conversar e compartilhar suas experiências, relembrando que “viver é em si uma arte” e que essas atividades ajudam a reconstruir os laços sociais rompidos pela tragédia.

O futuro de Suzu e de sua tradição cerâmica permanece incerto, mas a determinação é clara. A cidade, que já tinha uma das menores populações da ilha principal do Japão, viu seu número de habitantes diminuir ainda mais após o desastre, com mais da metade de sua população com 65 anos ou mais. No entanto, para aqueles que permanecem, a reconstrução vai além das estruturas físicas. Como observou um residente que perdeu sua casa duas vezes, a missão é também “reconstruir um senso de comunidade”. A cerâmica Suzu, que já desapareceu uma vez na história no século XV e foi revivida nos anos 1970, mais uma vez se torna um testemunho da tenacidade cultural e humana diante da adversidade.

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