Pacientes em Gaza temem ficar sem cuidados com possível saída da MSF

Proibição israelense ameaça expulsar Médicos Sem Fronteiras de Gaza

Organização que atende meio milhão de pessoas pode ser forçada a deixar o território em março

Nos corredores superlotados do hospital Nasser, em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza, o medo é tangível. Pacientes e familiares temem ser abandonados à própria sorte caso a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) seja forçada a deixar o território. A decisão israelense de revogar as licenças de operação de 37 organizações não-governamentais, incluindo a renomada organização médica, está programada para entrar em vigor no próximo dia 1º de março.

A justificativa apresentada pelo Ministério de Assuntos da Diáspora e Combate ao Antissemitismo de Israel é a de que as organizações não cumpriram novos requisitos de registro, que incluem a divulgação de informações detalhadas sobre seus funcionários palestinos. As autoridades israelenses alegam que as regras visam evitar que grupos militantes infiltrem ou desviem assistência. Em particular, Israel acusou dois funcionários da MSF de terem vínculos com o Hamas e o Jihad Islâmico, alegações que a organização nega veementemente.

Para os pacientes, a política se traduz em angústia pura. “Eles ficaram ao nosso lado durante toda a guerra”, disse Adam Asfour, de 10 anos, com o braço esquerdo preso por hastes metálicas depois de ser ferido por estilhaços em um bombardeio em setembro. A avó Fayrouz Barhoum, cujo neto de 18 meses, Joud, está sendo tratado por queimaduras no hospital Nasser, apela pela continuidade dos cuidados. “Precisamos de continuidade no tratamento”, afirmou.

A MSF é um dos maiores provedores de cuidados de saúde em Gaza, operando cerca de 20 centros de saúde e dando suporte a aproximadamente 20% dos leitos hospitalares do território. Em 2025, a organização realizou mais de 800 mil consultas médicas, tratou mais de 100 mil casos de trauma e assistiu mais de 10 mil partos. Seus serviços, que vão desde cirurgias e saúde mental até a distribuição de centenas de milhões de litros de água, atendem a quase meio milhão de pessoas em um sistema de saúde que já foi completamente destruído.

A organização alerta que a proibição terá consequências catastróficas, deixando centenas de milhares sem acesso a cuidados que salvam vidas. “Com o sistema de saúde em Gaza já destruído, a perda de acesso a organizações humanitárias independentes e experientes seria um desastre para a população palestiniana”, declarou a MSF. A proibição também impede a entrada de novos funcionários internacionais e de suprimentos médicos essenciais, obrigando as equipes locais exaustas a trabalhar com estoques cada vez mais reduzidos.

A medida israelense gerou uma onda de condenação internacional. Vários países, incluindo Reino Unido, França e Canadá, classificaram a proibição como “inaceitável”. Em uma declaração conjunta, todas as principais agências da ONU que atuam em Gaza pediram a reversão da decisão, alertando que ela prejudicaria os poucos progressos feitos após o cessar-fogo e agravaria o sofrimento da população. A União Europeia também se manifestou, afirmando que a lei de registro de ONGs “não pode ser implementada em sua forma atual” e que bloqueia ajuda que salva vidas.

Em resposta às críticas, o governo israelense minimizou a dependência de Gaza do trabalho dessas organizações. O braço militar israelense que coordena a entrada de bens em Gaza, o COGAT, afirmou que tentativas de “retratar o sistema humanitário em Gaza como dependente de sua equipe estão desconectadas da realidade no terreno”.

Enquanto o prazo de março se aproxima, a incerteza paira sobre os hospitais e clínicas de Gaza. Funcionários da MSF no hospital Nasser afirmam que continuarão trabalhando enquanto puderem, mas já enfrentam restrições severas à entrada de pessoal e suprimentos. O futuro de centenas de milhares de pacientes, como o jovem Adam e o bebê Joud, permanece profundamente incerto.

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