Pentágono disfarçou aeronave militar em ataque a barco suspeito de tráfico

Pentágono usou aeronave disfarçada de avião civil em ataque fatal, segundo relatos

Operação no Caribe em setembro de 2025, que deixou 11 mortos, é alvo de acusações de violação das leis de conflito armado

O Pentágono utilizou uma aeronave militar secreta, pintada para se parecer com um avião civil e com suas armas escondidas dentro da fuselagem, para realizar seu primeiro ataque contra um barco que a administração Trump alegava ser usado para contrabando de drogas. O ataque, ocorrido em 2 de setembro de 2025, resultou na morte de 11 pessoas no Caribe.

De acordo com especialistas legais e oficiais familiarizados com o assunto, o disfarce da aeronave é um ponto crucial. A administração Trump tem defendido que seus ataques letais a barcos são legais porque o presidente Donald Trump “determinou” que os Estados Unidos estão em um conflito armado com cartéis de drogas. No entanto, as leis da guerra proíbem explicitamente que combatentes finjam ser civis para enganar adversários e atacá-los quando estão com a guarda baixa. Esta prática é classificada como um crime de guerra chamado “perfídia”.

Um general reformado da Força Aérea dos EUA, Steven J. Lepper, que atuou como sub-advogado-geral, afirmou que ocultar a identidade de uma aeronave de combate é um elemento da perfídia. “Se a aeronave voando acima não é identificável como uma aeronave de combate, ela não deve se engajar em atividade de combate”, declarou. O Pentágono, questionado sobre o assunto, emitiu uma declaração padrão afirmando que utiliza uma ampla gama de aeronaves e que seu emprego segue um rigoroso processo para garantir a conformidade com a lei nacional e internacional.

Este ataque específico já era controverso antes da revelação do disfarce da aeronave. Após o primeiro bombardeio, um almirante da Marinha autorizou um segundo ataque, conhecido como “double-tap”, contra dois sobreviventes que estavam se agarrando aos destroços do barco. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, disse posteriormente que apoiou totalmente a decisão e que não divulgaria o vídeo não editado da operação.

A campanha mais ampla de ataques aéreos contra embarcações suspeitas de narcotráfico, liderada pelo secretário Hegseth, intensificou-se desde setembro. Relatórios indicam que, até o momento, pelo menos 123 pessoas foram mortas em cerca de 35 ataques no Caribe e no Pacífico Oriental. A administração insiste que os alvos são “organizações terroristas” designadas, ligadas ao tráfico de drogas, mas não tem compartilhado publicamente evidências extensas sobre a identificação das pessoas a bordo.

O contexto da operação se entrelaça com a pressão geopolítica dos EUA sobre a Venezuela. O presidente Trump atribuiu publicamente o barco atacado em setembro ao grupo criminoso Tren de Arágua, que ele afirma operar sob o controle do presidente venezuelano Nicolás Maduro. A campanha militar culminou, no início de janeiro, com uma operação de forças dos EUA que entraram na Venezuela e capturaram Maduro, acusado de conluio com grupos de narcotráfico.

A escalada da ação militar tem causado tensão com o Congresso americano. Um grupo bipartidário de senadores votou recentemente para bloquear o presidente Trump de usar mais força contra a Venezuela sem a aprovação prévia do Legislativo. As revelações sobre a possível perfídia no ataque de setembro agora devem acirrar ainda mais o debate sobre a legalidade e os limites desta campanha.

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