Onda de reclamações atinge políticas para estrangeiros em governos locais do Japão
Pesquisa revela que 40% das prefeituras e cidades designadas enfrentaram aumento significativo de protestos no último ano, com casos que chegaram a milhares de contatos
Uma pesquisa realizada pelo jornal Mainichi Shimbun com governos locais em todo o Japão revelou uma situação preocupante: 40% das administrações municipais relataram um aumento significativo de reclamações, protestos e opiniões contrárias a políticas relacionadas a estrangeiros no último ano. O levantamento, que abrangeu 65 governos locais entre prefeituras e cidades designadas por decreto, mostra como o tema da imigração tem gerado tensões e sobrecarregado os serviços públicos em diversas regiões do país.
Dos 26 governos locais que reportaram ter enfrentado uma série de reclamações, a escala variou consideravelmente. Quinze receberam menos de 100 ligações ou e-mails, treze registraram entre 100 e menos de 1.000 contatos, e três enfrentaram casos com 1.000 ou mais reclamações. O caso mais significativo ocorreu na província de Miyagi, onde a consideração temporária de desenvolver cemitérios com residentes muçulmanos em mente gerou impressionantes 2.470 chamadas e e-mails, muitos expressando preocupações sobre o potencial impacto na qualidade da água e do solo.
Especialistas apontam que a concentração de pressão sobre os governos locais pode intimidá-los, potencialmente revertendo a tendência rumo à coexistência multicultural. De acordo com analistas, a atual administração tem sido extremamente cautelosa ao introduzir medidas rotuladas como ‘política de imigração’ devido a preocupações com a alienação de eleitores conservadores. No entanto, a adaptação a tempos e sociedades em mudança é essencial, e à medida que as demandas dos residentes aos governos locais aumentam, cresce também a necessidade de aprimorar os sistemas de apoio a esses órgãos.
A maioria dos governos locais pesquisados identificou a desinformação nas redes sociais como um fator-chave por trás do aumento das reclamações. Vários municípios relataram que as queixas foram impulsionadas por informações não verificadas ou falsas circulando online. Em Shizuoka, por exemplo, funcionários relataram ter sido submetidos a abusos verbais, a ponto de sentirem medo de atender chamadas telefônicas.
Este fenômeno não é isolado. Em Kumamoto, em 2023, a cidade considerou revisar sua ordenança municipal básica para esclarecer que ‘residentes’ incluíam cidadãos estrangeiros – uma mudança completamente não relacionada a direitos de voto. No entanto, postagens no X reformularam a iniciativa como uma tentativa de conceder sufrágio a estrangeiros. O processo de consulta da cidade foi inundado com quase 2.000 comentários, a maioria de fora de Kumamoto, e a revisão foi retirada.
Da mesma forma, em Kitakyushu, um cardápio de merenda escolar que excluía 28 alérgenos comuns foi erroneamente caracterizado como uma iniciativa ‘amigável aos muçulmanos’ porque o porco estava entre os alérgenos removidos. Essa interpretação equivocada gerou mais de mil reclamações à diretoria de educação da cidade. Em Sakai, na província de Ibaraki, um almoço de um dia com inspiração halal, parte de um programa mensal de ‘Cardápio Mundial’ de longa data, foi retratado online como se a cidade tivesse ‘introduzido merendas escolares halal’ como acomodação institucional permanente, gerando uma enxurrada de chamadas e e-mails hostis, quase todos de fora da região.
Entre os 26 governos que relataram reclamações frequentes, 19 disseram sentir-se sobrecarregados com o tratamento das mesmas. A prefeitura de Miyagi observou casos que exigiam uma hora e meia a duas horas para responder cada um. Enquanto a maioria dos governos afirmou que não houve impacto em suas políticas devido à onda de reclamações infundadas, Shizuoka admitiu maior cautela ao divulgar informações sobre políticas de coexistência multicultural para evitar reclamações.
O contexto político mais amplo ajuda a explicar esse fenômeno. Uma pesquisa nacional de opinião mostrou que aproximadamente 70% dos japoneses apoiam políticas mais rigorosas para estrangeiros, com a postura do governo de endurecer as políticas voltadas a estrangeiros sendo um dos principais fatores de sustentação dos altos índices de aprovação. O número de estrangeiros residentes no Japão chegou a cerca de 3,96 milhões em junho, representando aproximadamente 3,21% da população, com projeções indicando que essa proporção pode chegar a 10,8% em 2070.
Diante desse cenário, o debate sobre políticas para estrangeiros entrou em uma fase mais aprofundada. O governo discute medidas de controle, incluindo o chamado ‘gerenciamento quantitativo’ de estrangeiros, que prevê a definição de metas e diretrizes quando a proporção de estrangeiros aumentar, incluindo a possibilidade de estabelecer limites de admissão para algumas categorias de visto. As autoridades também planejam dificultar o processo de naturalização e agir com mais rigor em relação aos estrangeiros que não cumprem as regras do país.
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