Pesquisa revela que fazer amigos na internet já é parte comum da infância no Japão.

Para crianças japonesas, fazer amigos online é tão natural quanto brincar no parque

Pesquisa inédita revela nova dinâmica das amizades infantis no país, marcada por conexões digitais e interações além da idade e do bairro

O tradicional convite para brincar no parque após a escola agora divide espaço com o convite para uma partida online. Uma pesquisa realizada com mais de 1.600 estudantes do ensino fundamental e médio no Japão pelo portal infantil Nifty Kids aponta que mais de 70% das crianças e adolescentes japoneses têm pelo menos um amigo com quem se relacionam exclusivamente pelo mundo digital. O dado reflete uma transformação profunda na infância, onde a internet se tornou parte central da vida social.

Essas amizades virtuais, formadas principalmente em jogos online, redes sociais e comunidades na internet, são marcadas por laços baseados em interesses comuns. Um dos achados interessantes do estudo é que cerca de 40% das crianças relatam interagir principalmente com pessoas de um a três anos mais velhas, uma conexão intergeracional menos comum em ambientes estritamente offline. Hobbies compartilhados, jogos favoritos e outras paixões mútuas facilitam essas pontes entre idades, criando um novo tecido social digital.

Entretanto, a pesquisa também joga luz sobre riscos que demandam atenção. Um número expressivo de crianças, 81,9% dos entrevistados, admitiu já ter compartilhado informações pessoais com amigos online. Os dados mais revelados são idade, gênero e data de aniversário, seguidos pela região onde vivem e o primeiro nome. Especialistas em segurança digital e estudos sobre o uso da internet por crianças no Japão ressaltam que, embora esse compartilhamento não represente perigo imediato, ele destaca a necessidade de os pais acompanharem mais de perto o uso da internet pelos filhos e promoverem uma educação digital.

Apesar da troca de informações, as crianças demonstram uma cautela notável. Quase 90% daquelas com amigos online afirmaram nunca tê-los encontrado pessoalmente. Quando questionadas se gostariam de se encontrar, respostas como “não quero” ou “quero, mas é assustador” foram as mais comuns, indicando uma consciência inata sobre os limites do mundo virtual. Muitas disseram que só considerariam um encontro no futuro, quando fossem mais velhas ou conhecessem melhor a pessoa.

Para muitos jovens, os amigos online representam um porto seguro. Eles descrevem essas relações como espaços onde podem conversar livremente, compartilhar interesses e se abrir, sem a pressão das expectativas sociais do mundo real, mantendo uma distância saudável. Outros, no entanto, mantêm um nível saudável de desconfiança, afirmando que amigos virtuais não devem ser completamente confiados. Este cenário ocorre em um contexto onde o acesso à internet começa cada vez mais cedo. Dados do governo japonês indicam que 78,5% das crianças entre 0 e 9 anos já são usuárias da internet.

O fenômeno das amizades online é, portanto, um reflexo da evolução natural da infância em uma sociedade hiperconectada. As crianças continuam buscando compartilhar experiências divertidas e construir laços de amizade. A principal diferença é que, hoje, o sinal de Wi-Fi está inevitavelmente no meio do caminho, criando novos formatos de convivência que mesclam oportunidades únicas de socialização com desafios que exigem orientação e diálogo constante.

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