População estrangeira no Japão atinge 3,96 milhões e gera debate político

Japão em encruzilhada migratória: país atinge recorde de estrangeiros e debate políticas de integração

Com mais de 3,9 milhões de residentes estrangeiros, pressão por regras mais rígidas e avanço eleitoral do partido Sanseito marcaram 2025

O Japão fechou o primeiro semestre de 2025 com um número recorde de residentes estrangeiros vivendo em seu território: 3,96 milhões de pessoas, segundo dados oficiais. Este marco histórico, que representa um crescimento de cerca de 80% na última década, colocou a política de imigração no centro de um acalorado debate nacional, impulsionado pela ascensão eleitoral do partido nacionalista Sanseito e por novas propostas do governo para tornar os critérios de permanência mais rigorosos.

O ponto de virada aconteceu em julho, durante as eleições para a câmara alta do Parlamento. O partido Sanseito, antes obscuro, viu sua bancada saltar de um para 15 assentos, tornando-se a terceira maior força de oposição na Casa. A campanha do partido, liderada pelo carismático Sohei Kamiya, foi estruturada sob o slogan “Japoneses em Primeiro Lugar” e focou em uma retórica que atribui a estrangeiros problemas como pressão sobre serviços públicos e perda de identidade cultural. O sucesso do Sanseito, que alguns analistas associam a influências de movimentos populistas globais, abalou a tradicional estabilidade da política japonesa e forçou o Partido Liberal Democrático (PLD), no governo, a reposicionar sua agenda sobre o tema.

Em resposta à nova correlação de forças e à opinião pública, o governo da primeira-ministra Sanae Takaichi passou a discutir um pacote de medidas mais rígidas para a imigração. As propostas, que devem ser consolidadas até abril de 2027, incluem tornar a proficiência no idioma japonês um requisito formal para a obtenção da residência permanente, atualmente baseada em dez anos de residência e comprovação financeira. Além disso, está em estudo a criação de um “programa de inclusão social” obrigatório, onde estrangeiros aprenderiam regras comunitárias e legislação básica.

O governo também planeja medidas de “gestão quantitativa”, que poderiam estabelecer limites para a admissão em algumas categorias de visto, e pretende cruzar dados do sistema de identificação “My Number” com informações de visto para monitorar o uso de benefícios sociais. Para trabalhadores qualificados e estudantes, a ideia é intensificar o controle para evitar desvios de função e tornar a permissão de trabalho para universitários estrangeiros condicionada ao desempenho acadêmico.

Essa guinada em direção a um controle mais estrito encontra respaldo em uma parcela significativa da população. Uma pesquisa de opinião nacional apontou que 71% dos japoneses avaliam positivamente a política de maior rigor no tratamento da questão migratória. O apoio é consistente em diferentes faixas etárias e atinge 84% entre os eleitores que apoiam o atual governo.

Enquanto o debate político se intensifica, a presença estrangeira se expande para além dos grandes centros urbanos. Dados mostram que em 96% dos municípios japoneses a população estrangeira aumentou na última década, com crescimento exponencial em algumas vilas rurais que enfrentam escassez aguda de mão de obra. Esse fenômeno expõe o dilema central do país: a necessidade econômica de trabalhadores para sustentar uma sociedade que envelhece rapidamente e as pressões sociais e políticas por uma integração mais seletiva e controlada.

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