Preço duplo em ramen de Osaka gera polêmica e discussão sobre discriminação

Menu em inglês dobra preço do ramen em restaurante de Osaka

Política de preços diferenciados e declaração do dono, que citou ‘japoneses primeiro’, geram acusações de discriminação e debate sobre turismo

Um restaurante de ramen em Osaka, no Japão, está no centro de uma polêmica internacional após ser revelado que seus preços no menu em inglês são até 100% mais altos do que os do menu em japonês. O estabelecimento, chamado Gadoya, defende a prática afirmando que oferece produtos “especiais e premium” para clientes que não falam japonês, mas as descrições e fotos dos pratos são idênticas, levantando questões sobre discriminação e transparência.

O sistema do restaurante funciona através de uma máquina de venda de tickets com tela sensível ao toque, onde o cliente escolhe entre o menu em japonês ou em inglês. Enquanto um ramen básico custa 864 ienes (cerca de R$ 28) na versão japonesa, o mesmo item no menu em inglês é listado por 1.500 ienes (cerca de R$ 49). Diferenças semelhantes se aplicam a todos os pratos, com o preço do “Green Onion Braised Pork Ramen” saltando de 1.228 para 2.200 ienes apenas por mudar o idioma da interface.

O proprietário, Yusuke Arai, um ex-artista marcial misto, justificou a diferença em um vídeo, explicando que o cardápio em idioma estrangeiro oferece apenas “ramens premium especiais” que “não desapontarão ninguém”. Ele argumentou que explicar as personalizações do prato padrão para quem não entende japonês seria impossível. No entanto, as descrições textuais no menu japonês e as fotos no menu em inglês mostram os mesmos ingredientes, como fatias de nori e chashu.

A situação escalou no início de janeiro, quando o restaurante relatou um conflito com clientes chineses que, após comerem, exigiram reembolso alegando que o prato era diferente do pedido. O restaurante se recusou e ameaçou chamar a polícia. Em publicações nas redes sociais relacionadas ao incidente, a conta do estabelecimento afirmou que “90% dos problemas com estrangeiros são com chineses” e que estavam considerando proibir sua entrada.

Em meio à controvérsia, Arai tentou esclarecer que a distinção é por idioma, não por nacionalidade. “Não estamos diferenciando com base na nacionalidade, mas sim em saber ou não japonês”, disse. Contudo, em outra declaração, ele contradisse essa afirmação ao escrever: “O grupo Gadoya é pela ideia de ‘japoneses primeiro'”. Ele também afirmou que a política de preços mais altos é uma medida de “proteção à segurança” do estabelecimento e de seus funcionários.

O caso reacendeu um debate mais amplo no Japão sobre “preços duplos” (ou “two-tiered pricing”) para turistas e residentes locais, uma prática que vem sendo discutida como forma de gerenciar o overtourism e proteger o acesso da população local a serviços. Especialistas consultados pela mídia japonesa apontam que, enquanto em outros países é comum haver descontos para residentes locais (como no modelo “kamaʻāina” do Havaí), a implementação no Japão é delicada. Eles sugerem que a estratégia mais eficaz e menos conflituosa é estabelecer um preço padrão completo e oferecer um desconto verificável para residentes, em vez de cobrar mais caro explicitamente de um grupo.

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