Premiê japonesa enfrenta críticas por dissolução da Câmara Baixa apenas três meses após assumir

Takaichi coloca cargo em jogo e defende eleição relâmpago no Japão

Primeira-ministra promete renunciar se coalizão perder maioria em meio a críticas sobre timing e impacto no orçamento nacional

Em um debate acalorado entre líderes partidários no Clube Nacional de Imprensa do Japão, a primeira-ministra Sanae Takaichi defendeu sua polêmica decisão de dissolver a Câmara dos Representantes e convocar eleições gerais para o dia 8 de fevereiro, apenas três meses após assumir o cargo. A chefe de governo, a primeira mulher a ocupar o posto no país, enfrentou críticas de que a manobra interrompeu debates cruciais sobre o orçamento nacional e medidas contra a inflação. Em uma jogada dramática, Takaichi declarou que renunciaria imediatamente se a coalizão governista, formada por seu Partido Liberal Democrata (PLD) e o Partido Inovação do Japão, não conseguir manter a maioria dos assentos na Câmara Baixa.

O principal crítico no debate foi Yoshihiko Noda, co-líder da recém-formada aliança de oposição Centrist Reform Alliance (CRA). Noda, que também foi primeiro-ministro, argumentou que a dissolução precipitada levou a atrasos na implementação de medidas anti-inflacionárias e nos debates sobre o orçamento do próximo ano fiscal, que começa em abril. Ele também afirmou que a eleição impõe um fardo adicional aos governos municipais, que precisam organizar a votação em um período extremamente curto. Takaichi rebateu, afirmando que a dissolução foi decidida após a identificação de medidas econômicas suficientes e que 70% dos municípios já começaram os preparativos para o pleito.

A decisão de Takaichi é vista por analistas políticos como uma aposta arriscada para capitalizar sua ainda elevada popularidade pessoal antes que debates parlamentares sobre escândalos de seu partido possam corroer seu apoio. Desde que assumiu em outubro, seu gabinete manteve índices de aprovação altos, próximos a 70%, embora pesquisas recentes já indiquem uma queda, em parte devido a dúvidas sobre o financiamento de sua principal promessa de campanha: uma isenção de dois anos do imposto sobre consumo para produtos alimentícios. Enquanto a aprovação de Takaichi permanece sólida, o apoio ao PLD em si está estagnado em cerca de 30%, fragilizado por escândalos recentes de fundos secretos e por suas ligações com um grupo religioso controverso.

O período de campanha para esta eleição será o mais curto do pós-guerra no Japão, com apenas 16 dias entre o início oficial e a votação. Especialistas como o professor Naoto Nonaka, da Universidade Gakushuin, veem nisso uma tática para limitar o tempo de debate. “Ao negar aos eleitores e aos partidos de oposição tempo para pensar, o governo pode evitar explicar plenamente vários assuntos”, comentou Nonaka. A eleição também é historicamente incomum por acontecer no início de uma sessão ordinária do parlamento, interrompendo imediatamente os trabalhos para a aprovação do orçamento anual, uma prioridade tradicional.

Em sua justificativa, Takaichi afirmou que a eleição é necessária para que o povo japonês decida diretamente se ela deve continuar como primeira-ministra, já que seu gabinete nunca foi testado em uma eleição geral. Ela também citou mudanças significativas na política, incluindo uma grande revisão da política fiscal e econômica em direção ao que chama de “finanças públicas responsáveis e proativas”, além da mudança na coalizão de governo, que agora não inclui mais o partido Komeito. O resultado do pleito, portanto, não apenas definirá o próximo governo, mas poderá selar o destino político precoce da primeira mulher a liderar o Japão.

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