Liberdade Acadêmica Sob Ameaça em Meio a Pressões Políticas e Cultura do Cancelamento
Instituições de ensino superior enfrentam desafios para manter o debate livre e o pensamento crítico
A liberdade acadêmica, pilar fundamental das universidades, enfrenta um período de erosão acelerada sob pressões políticas, demandas de doadores e o fenômeno conhecido como cultura do cancelamento. Especialistas alertam que instituições outrora reverenciadas estão cedendo a intimidações, o que mina a confiança pública em sua capacidade de defender a liberdade de expressão. Nos Estados Unidos, a administração Trump chegou a reter verbas federais para exigir conformidade ideológica, exemplificando a gravidade do cenário.
Diante deste contexto, surge um chamado para que as universidades reconheçam os debates sobre liberdade de expressão não como uma ameaça a ser silenciada, mas como uma oportunidade pedagógica crucial. Aprender a navegar por argumentos desafiadores e ofensivos, mantendo a civilidade, é apontado como uma habilidade essencial para a manutenção de uma democracia saudável. Este cenário não se restringe às fronteiras americanas. No Japão, uma controvérsia emblemática ocorreu quando o governo, por meio do Ministério da Educação (MEXT), sugeriu em 2015 que universidades públicas poderiam “abolir seus departamentos de ciências sociais e humanidades” para priorizar áreas consideradas mais estratégicas e econômicas. A medida, justificada pela necessidade de eficiência em um cenário de crise demográfica e queda no número de estudantes, foi considerada “anti-intelectual” por setores da sociedade e da própria indústria japonesa.
Um caso concreto da tensão entre sensibilidade e liberdade acadêmica ocorreu na Hamline University, nos Estados Unidos. Em 2022, a administração da universidade demitiu uma professora adjunta que mostrou uma representação do Profeta Maomé em uma aula de história da arte, após uma reclamação de uma estudante muçulmana. A presidente da instituição na época afirmou que o “respeito pelos estudantes muçulmanos deveria ter superado a liberdade acadêmica”, declarando uma postura que gerou amplo debate. Em resposta a esse e outros episódios, professores como Mark Berkson, da Hamline, defendem uma abordagem pedagógica que use o conflito como ferramenta de ensino.
No Japão, a polêmica sobre os cursos de humanas revelou um conflito similar entre visões utilitaristas e o valor intrínseco do pensamento crítico. Apesar da pressão governamental, universidades de elite como a Universidade de Tóquio e a Universidade de Kyoto lideraram a resistência, recusando-se a cancelar cursos. A Keidanren, poderosa federação das indústrias japonesas, também criticou a visão de curto prazo, defendendo que as empresas precisam de profissionais com entendimento da diversidade social e cultural, e não apenas tecnicamente preparados. Estudos no Japão chegaram a indicar que estudantes de engenharia e ciências têm piores hábitos de leitura do que os de humanas, destacando um aspecto do problema.
O fenômeno da cultura do cancelamento, amplificado pelas redes sociais, adiciona outra camada de complexidade. Caracterizada como a exclusão social ou profissional de indivíduos cujos言行 são considerados inaceitáveis por um grupo, ela gera um ambiente de medo e autocensura, inclusive nas universidades. Críticos, incluindo ex-presidente Barack Obama, argumentam que essa prática é improdutiva e não gera mudança social real. Analistas apontam que esse clima inibe o debate aberto e a troca de ideias, essenciais para a vida acadêmica.
O cenário financeiro também pressiona as instituições. O Japão, por exemplo, está entre os países da OCDE que menos investem em educação, destinando apenas 8% do gasto governamental ao setor, abaixo da média de 11,5%. O gasto por estudante no ensino superior japonês é cerca de metade da média da OCDE. Essa combinação de pressão política, tensões culturais e restrições orçamentárias cria uma tempestade perfeita que desafia a missão central das universidades como espaços de questionamento livre e produção de conhecimento. Manter este espaço aberto ao dissenso é, segundo especialistas, fundamental não apenas para a educação, mas para o futuro da própria democracia.
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