Primeiro-ministro canadense defende aliança de potências médias em discurso histórico

Líder canadense declara fim da ordem mundial e pede nova aliança em Davos

Em discurso contundente, primeiro-ministro Mark Carney afirmou que potências médias precisam se unir diante da “ruptura” geopolítica global

O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, usou o palco do Fórum Econômico Mundial em Davos para declarar o fim da ordem internacional baseada em regras e fazer um apelo por uma nova coalizão de potências médias. Em discurso direto, Carney afirmou que o mundo vive uma “ruptura” e não uma simples transição, onde grandes potências usam a integração econômica como arma de coerção.

Carney foi enfático ao criticar o que chamou de “ficção útil” da ordem liderada pelos Estados Unidos, reconhecendo que, embora tenha proporcionado benefícios como estabilidade financeira e segurança coletiva, seu funcionamento assimétrico não serve mais aos interesses de países como o Canadá. “Esta barganha não funciona mais”, declarou, acrescentando que “a nostalgia não é uma estratégia” para lidar com a nova realidade geopolítica.

Um dos pontos mais contundentes do discurso foi a defesa da soberania do Ártico. Carney declarou apoio inequívoco à Groenlândia e à Dinamarca, afirmando que o Canadá “se opõe veementemente” às tarifas comerciais impostas por Washington sobre países que se opõem aos planos de anexação da ilha. “Apoiamos totalmente o direito exclusivo da Groenlândia e da Dinamarca de determinar o futuro da ilha no Ártico”, disse o premiê canadense.

Para ilustrar a necessidade de mudança, Carney recorreu à metáfora do dissidente tcheco Václav Havel sobre o “poder dos sem poder”, comparando a conformidade internacional com a ordem anterior a um comerciante que coloca um cartaz ideológico em sua vitrine sem acreditar no conteúdo, apenas para evitar problemas. “Amigos, é hora de empresas e países tirarem seus cartazes da vitrine”, declarou, convocando para uma postura mais honesta nas relações internacionais.

O líder canadense apresentou o conceito de “realismo baseado em valores” como guia para a nova estratégia de seu país – uma abordagem que combina princípios como soberania e direitos humanos com pragmatismo diante de interesses divergentes. Como parte dessa estratégia, Carney anunciou que o Canadá está acelerando um trilhão de dólares em investimentos em energia, inteligência artificial e minerais críticos, além de dobrar os gastos com defesa até o final da década.

Na frente diplomática, o premiê destacou a diversificação de parcerias, incluindo acordos recentes com a União Europeia, China, Qatar e negociações em curso com o Mercosul, Índia e países do Sudeste Asiático. A abordagem, segundo ele, baseia-se em “geometria variável” – formando coalizões diferentes para questões diferentes com base em valores e interesses comuns.

Carney alertou que, em uma era de rivalidade entre grandes potências, os países de porte médio têm uma escolha crucial: “competir entre si por favor ou se unir para criar um terceiro caminho com impacto”. Sua mensagem final foi clara: “Se não estivermos à mesa, estaremos no cardápio”. O discurso ocorreu um dia antes da esperada intervenção do presidente americano Donald Trump no mesmo fórum, criando um contraste deliberado de visões sobre a governança global.

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