Líder canadense alerta para fim da ordem global baseada em regras em Davos
Mark Carney defende que potências médias como o Canadá criem um “terceiro caminho” diante da rivalidade entre grandes nações
O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, fez um discurso contundente no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, declarando que o mundo está no meio de uma “ruptura, não uma transição” na ordem internacional. Carney argumentou que a antiga ordem baseada em regras, que durante décadas forneceu bens públicos como um sistema financeiro estável e segurança coletiva, não funciona mais.
Sem mencionar diretamente os Estados Unidos ou o presidente Donald Trump, Carney deixou claro que se referia às ações recentes da superpotência. Ele criticou o que chamou de uso da integração econômica como arma, com “tarifas como alavancagem, infraestrutura financeira como coerção e cadeias de suprimentos como vulnerabilidades a serem exploradas”. O primeiro-ministro afirmou que a “ficção útil” da hegemonia americana, que era tolerada por seus benefícios, chegou ao fim.
“As potências médias devem agir juntas, porque se não estivermos à mesa, estaremos no cardápio”, advertiu Carney, recebendo uma ovação de pé da plateia em Davos. Ele defendeu que países como o Canadá, Austrália, Coreia do Sul e Brasil têm a escolha de competir entre si pelo favor das grandes potências ou de se combinarem para criar um terceiro caminho com impacto real.
O discurso foi visto como uma resposta direta às tensões geopolíticas recentes, incluindo as ameaças dos EUA de anexar a Groenlândia, território autônomo da Dinamarca e aliado da OTAN. Carney reiterou o apoio inabalável do Canadá à Groenlândia, à Dinamarca e ao Artigo 5 da OTAN, que considera um ataque a um aliado como um ataque a todos.
Carney também detalhou a nova postura estratégica do Canadá, que ele descreve como um “realismo baseado em valores”. Isso inclui diversificar parcerias comerciais e de segurança em todo o mundo, aumentar os gastos de defesa e buscar uma “geometria variável” – formando diferentes coalizões para diferentes questões com base em interesses e valores compartilhados. O objetivo é construir autonomia estratégica sem se isolar em fortalezas nacionais.
A fala de Carney ecoa preocupações de outros líderes em Davos. O chanceler alemão, Olaf Scholz, concordou publicamente que as nações não podem mais confiar apenas na “força de seus valores”, mas também devem reconhecer o “valor de sua força”. Analistas internacionais interpretaram o discurso como um marco, sendo a primeira vez que um importante líder ocidental declara abertamente o colapso da ordem internacional liderada pelos EUA e propõe um caminho alternativo claro.
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