Protestos massivos colocam regime iraniano em sua maior crise de legitimidade
Movimento que começou com crise econômica evolui para desafio político aberto, com repressão violenta e corte total de comunicações
O Irã vive um dos momentos mais críticos de sua história recente, com protestos que começaram por razões econômicas transformando-se em um movimento nacional que desafia abertamente a legitimidade do regime clerical. O líder supremo, Ayatollah Ali Khamenei, de 86 anos, enfrenta a maior onda de contestação desde a Revolução Islâmica de 1979, em um cenário de violenta repressão, corte nacional de internet e crescentes pressões internacionais.
Os protestos iniciaram-se em dezembro de 2025, quando comerciantes do Grande Bazar de Teerã foram às ruas indignados com a queda vertiginosa do rial, a moeda nacional, que perdeu valor de forma dramática. O movimento rapidamente se espalhou para todas as 31 províncias do país, ganhando adesão de estudantes, jovens e amplos setores da população frustrados com a crise econômica, a inflação galopante e as restrições políticas.
Na noite de 8 para 9 de janeiro, os protestos atingiram seu ápice, com manifestações massivas em Teerã, Mashhad, Tabriz, Qom e dezenas de outras cidades. Vídeos que circularam antes do apagão da internet mostravam multidões gritando “morte ao ditador” – em referência a Khamenei – e, em alguns locais, pedindo o retorno da monarquia através do exilado príncipe Reza Pahlavi, filho do último xá. Em Isfahan, manifestantes incendiaram um prédio da emissora estatal, enquanto em várias cidades bandeiras do regime eram substituídas pela antiga bandeira imperial.
Em resposta, o governo impôs um apagão quase total da internet, que já dura mais de 36 horas, dificultando a verificação de informações e a comunicação com o mundo exterior. Organizações de direitos humanos alertam que o corte visa esconder a real dimensão da repressão. De acordo com grupos de monitoramento, pelo menos 65 pessoas foram mortas, incluindo nove crianças, e mais de 2.300 foram detidas desde o início dos protestos.
O líder supremo Khamenei rompeu o silêncio em discurso televisionado, classificando os manifestantes como “vândalos” e “sabotadores” que agem para “agradar o presidente dos Estados Unidos”. Ele foi enfático ao afirmar que a República Islâmica, que chegou ao poder “com o sangue de centenas de milhares”, não recuará. Paralelamente, o chefe do Judiciário, Gholamhossein Mohseni-Ejei, prometeu que a punição aos manifestantes seria “decisiva, máxima e sem qualquer leniência legal”.
A crise iraniana ganhou dimensão internacional com o presidente americano, Donald Trump, declarando apoio aos manifestantes e advertindo que, se o regime “começar a atirar, nós também atiraremos”. A ameaça foi considerada séria após a recente intervenção militar dos EUA na Venezuela. Líderes europeus, incluindo França, Alemanha e Reino Unido, emitiram declaração conjunta condenando a violência contra protestos pacíficos e pedindo moderação às autoridades iranianas.
Analistas apontam que, diferentemente dos protestos de 2022-2023 desencadeados pela morte de Mahsa Amini, o atual movimento nasceu do coração da economia tradicional iraniana – o bazar – e rapidamente incorporou demandas políticas mais amplas. A combinação de colapso econômico, isolamento internacional e descontentamento generalizado criou uma tempestade perfeita que ameaça a estabilidade de um regime que parecia inabalável.
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