Protestos massivos e blackout digital pressionam regime iraniano

Irã vive maior onda de protestos desde 2022 com repressão violenta e blackout digital

Manifestações iniciadas por crise econômica se transformam em desafio político ao regime, enquanto EUA emitem ameaças de intervenção

O Irã enfrenta seus maiores protestos em anos, com uma onda de manifestações que começou no final de dezembro e já se espalhou por 25 das 31 províncias do país. A repressão das forças de segurança deixou dezenas de mortos e mais de duas mil pessoas detidas, enquanto o regime impôs um corte nacional de internet e telecomunicações para tentar conter a mobilização popular. Os protestos, inicialmente motivados pelo colapso da moeda local e pela inflação galopante, rapidamente incorporaram slogans contra o próprio sistema político iraniano, representando um desafio significativo à teocracia islâmica.

De acordo com a ONG Iran Human Rights, sediada na Noruega, pelo menos 45 manifestantes, incluindo oito menores, já morreram nos confrontos. Centenas ficaram feridos e mais de 2.000 foram detidos. A quarta-feira, 7 de janeiro, foi o dia mais sangrento, com 13 mortos. As forças de segurança têm utilizado gás lacrimogêneo e, segundo relatos, munição real para dispersar os manifestantes. Em resposta à violência, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou intervir, declarando que se o regime iraniano “começar a matar pessoas, nós os atingiremos muito duramente”.

O corte de internet, implementado pelas autoridades iranianas, é descrito por especialistas como o mais severo e sofisticado já visto no país. A organização Netblocks, que monitora a segurança cibernética, confirmou um “apagão nacional da internet”, que prejudica o direito à comunicação em um momento crítico. A medida, que já dura mais de 36 horas, é vista como uma tentativa de isolar os manifestantes e impedir que imagens da repressão cheguem ao mundo exterior. A Anistia Internacional classificou o blackout como uma violação dos direitos humanos, destinada a esconder abusos.

Os protestos eclodiram em 28 de dezembro, quando comerciantes do bazar de Teerã se manifestaram contra o aumento dos preços e a desvalorização catastrófica do rial, que chegou a atingir a marca de 1,4 milhão de riais por dólar. A crise econômica é profunda, com uma inflação que supera os 40% e uma pobreza que atinge até metade da população. A economia sofre com décadas de sanções internacionais, má gestão e corrupção, agravadas por uma recente guerra de 12 dias com Israel. Para muitos iranianos, itens básicos como carne se tornaram artigos de luxo.

Apesar do bloqueio das comunicações, vídeos que circularam nas redes sociais antes do apagão mostravam multidões em Teerã e outras grandes cidades, como Tabriz e Mashhad, gritando slogans que vão desde reclamações econômicas até ataques diretos ao establishment. Frases como “Seyyed Ali será destituído”, em referência ao líder supremo Ali Khamenei, e “é a batalha final, Pahlavi voltará”, evocando a monarquia deposta em 1979, foram ouvidas. Reza Pahlavi, filho do último xá e que vive no exílio, tem apoiado os protestos publicamente.

Em seu primeiro comentário sobre os distúrbios, o aiatolá Khamenei, de 86 anos, acusou os manifestantes de agirem como “mercenários de estrangeiros” para agradar o presidente Trump. Enquanto isso, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, adotou um tom aparentemente mais conciliador, pedindo “máxima moderação” e diálogo, além de prometer reformas econômicas. A União Europeia e países como Alemanha e França expressaram preocupação com a violência e solidariedade ao povo iraniano.

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