Índia acelera transição energética e supera ritmo histórico da China
Tecnologias modulares mais baratas permitem eletrificação acelerada e reduzem dependência de combustíveis fósseis
Um novo estudo do think tank Ember revela um marco significativo na geopolítica energética: a Índia está se eletrificando a um ritmo mais acelerado do que a China quando esta se encontrava em nível similar de desenvolvimento econômico. A análise, que ajusta o PIB de ambos os países pelo custo de vida, compara a Índia de hoje, com renda per capita de aproximadamente US$ 11.000, à China de 2012. Os resultados desafiam a narrativa tradicional de que mercados emergentes precisam necessariamente percorrer o mesmo caminho de dependência de combustíveis fósseis trilhado por nações ocidentais e pela própria China.
O segredo por trás dessa aceleração indiana está no acesso a tecnologias modulares drasticamente mais baratas. Painéis solares, baterias e carros elétricos têm custos significativamente inferiores aos disponíveis para a China há uma década. Esse fenômeno é resultado dos investimentos maciços chineses que industrializaram e baixaram os custos dessas tecnologias. Como cada unidade produzida permite ganhos de eficiência, a curva de aprendizado global beneficia agora países como a Índia. Em 2024, 5% das novas vendas de carros no país já eram elétricas, e o consumo per capita de petróleo para transporte rodoviário é 60% menor do que o registrado pela China ao atingir patamar econômico similar.
Este movimento é impulsionado por uma expansão concreta do setor de energias renováveis no país, com a criação de centenas de empregos especializados em operação e manutenção de usinas solares em diversos estados. Apesar do avanço verde, o governo indiano ainda considera planos para dobrar sua capacidade de energia a carvão até 2047, refletindo a complexidade da transição em uma economia em rápido crescimento. No entanto, em termos absolutos, o consumo de combustíveis fósseis da Índia cresce a taxas mais lentas do que as atuais da China, e seu consumo per capita de carvão e petróleo é apenas uma fração do que a China registrava em nível de renda equivalente.
A busca por segurança energética é um motivador central. A Índia importa cerca de 90% de seu petróleo bruto, com volumes batendo recordes anuais. Reduzir a pesada carga das importações de combustíveis fósseis, que custam US$ 150 bilhões anuais, é uma prioridade econômica estratégica. Neste contexto, especialistas do Ember cunham o termo “electroestado” para descrever nações que, como a Índia, não possuem reservas significativas de fósseis e buscarão atender a maioria de suas necessidades energéticas por meio de eletricidade de fontes limpas.
O caminho, porém, tem obstáculos. A China hoje domina a manufatura global de tecnologias de eletrificação, desde painéis solares até componentes para baterias, criando um gargalo potencial. A dificuldade de empresas indianas, como a Reliance Industries, em obter equipamentos essenciais da China para fabricar células de bateria de íon-lítio localmente ilustra esse desafio. Analistas sugerem que o mundo pode estar no auge do domínio chinês neste setor, com pressões geopolíticas e tarifárias dos EUA e da Europa incentivando outros países a desenvolverem suas próprias capacidades manufatureiras.
A conclusão do relatório é clara: a transição para a eletrificação verde não está sendo feita primordialmente por motivos climáticos, mas por uma lógica econômica irresistível. Para a Índia, representa um caminho para crescimento, independência energética e um salto tecnológico. O caso indiano serve como um modelo potencial para outras economias em desenvolvimento, indicando que a era dos combustíveis fósseis como etapa obrigatória do progresso pode estar chegando ao fim.
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