Rendimento de títulos do governo japonês atinge maior patamar desde 1999 após alta de juros

Rendimento de títulos japoneses atinge maior nível em 25 anos com fim da era de juros zero

Decisão histórica do Banco do Japão de elevar juros para conter inflação redefine mercado de dívida e preocupa investidores globais

O rendimento do título de referência de 10 anos do governo japonês disparou, alcançando a marca de 2,100% nesta segunda-feira, o nível mais elevado desde fevereiro de 1999. O movimento é uma reação direta à decisão histórica do Banco do Japão de continuar elevando as taxas de juros, encerrando definitivamente décadas de política monetária ultraexpansiva e dinheiro barato.

Em sua reunião de dezembro, o Banco do Japão aumentou a taxa de juros de curto prazo em 25 pontos-base, para 0,75%, atingindo o patamar mais alto desde 1995. Foi o segundo aumento do ano, confirmando uma mudança estrutural na política econômica do país. O banco central sinalizou claramente que pretende continuar esse ciclo de normalização, afastando-se da postura que manteve por anos para combater a deflação.

Por trás da decisão, está uma inflação que persiste acima da meta de 2% há quase quatro anos e a necessidade de sustentar o valor do iene, que sofreu forte desvalorização. O governador do Banco do Japão, Kazuo Ueda, afirmou que adiar o ajuste monetário poderia exigir aumentos mais bruscos no futuro, destacando que as taxas de juros reais ainda permanecem em território significativamente negativo.

O novo cenário de juros mais altos coloca um desafio extra para o governo da primeira-ministra Sanae Takaichi, que recentemente aprovou um massivo pacote de estímulos fiscais. Com uma dívida pública que supera duas vezes o tamanho da economia do país, o custo de financiamento do Estado tende a subir, criando um delicado equilíbrio entre estímulo ao crescimento e sustentabilidade fiscal.

Para os mercados globais, a virada japonesa tem um peso desproporcional. O Japão é o maior credor líquido do mundo, e por anos seus investidores institucionais canalizaram trilhões de ienes para títulos estrangeiros em busca de melhor retorno, uma operação conhecida como carry trade. Com o rendimento doméstico em alta, o incentivo para buscar ativos no exterior diminui, podendo levar a uma “repatriação” de capitais que afeta a demanda por dívida de países como Estados Unidos e nações europeias.

Analistas internacionais alertam que o desmonte gradual dessas operações de carry trade pode gerar volatilidade e pressão de alta nos rendimentos de títulos ao redor do mundo. O diferencial de juros entre os títulos do Tesouro americano de 10 anos e os títulos japoneses equivalentes já encolheu para o menor nível desde março de 2022, reduzindo a atratividade relativa dos ativos estrangeiros para os investidores do Japão.

A expectativa geral é de que o Banco do Japão mantenha um ritmo gradual de aperto monetário, avaliando cuidadosamente o impacto sobre o consumo e os investimentos. No entanto, a direção está definida: após ser por décadas a fonte de financiamento barato para o mundo, o Japão entrou em uma nova era, onde seu mercado financeiro volta a contar de forma decisiva no cenário global.

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