Retrocesso nas políticas climáticas dos EUA contrasta com ano de desastres e calor recorde no Japão

2025: O ano em que a política climática global retrocedeu, mas os desastres avançaram

Enquanto os EUA abandonaram compromissos ambientais, o Japão sentiu na pele o custo da inação, com calor extremo, desastres naturais e uma invasão de ursos

Para ambientalistas e cientistas do clima, 2025 foi um pesadelo que confirmou os piores temores. Logo no início do seu segundo mandato, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou uma ordem executiva para retirar o país do Acordo de Paris de 2015. Esse foi apenas o primeiro ato de um sistemático desmonte: o governo Trump cortou financiamento para pesquisa climática, removeu referências e dados sobre mudança do clima de sites federais e, em discurso na Assembleia Geral da ONU, classificou o fenômeno como uma “farsa”. A postura americana teve efeito dominó, minando negociações internacionais, como o tratado global sobre plásticos, e culminando na recusa em enviar uma delegação oficial à COP30, que terminou sem consenso sobre a transição dos combustíveis fósseis.

Enquanto a política climática global patinava, a crise ambiental seguiu seu curso implacável. Incêndios florestais na área de Los Angeles em janeiro foram o desastre climático mais caro do ano, com perdas econômicas superando US$ 60 bilhões. No Japão, o ano foi marcado por extremos. Após um janeiro anormalmente quente, nevascas em fevereiro e março causaram caos nos transportes. O verão seguinte, porém, entrou para a história: foi o mais quente já registrado na maior parte do país, com 132 dos 153 pontos de observação batendo recordes desde 1946. A cidade de Isesaki, em Gunma, atingiu a marca nacional de 41,8°C. O calor levou um número recorde de mais de 100 mil pessoas aos hospitais com insolação.

O aquecimento está alterando a realidade do arquipélago. A tradicional divisão em quatro estações claras, parte da identidade cultural japonesa, está sob ameaça, a ponto de “Niki” (duas estações) ter entrado no top 10 das palavras-chave do ano. Outro símbolo do ano foi o kanji do “urso” (kuma), escolhido como o caractere do ano. Os encontros entre humanos e ursos atingiram níveis sem precedentes, com 230 ataques e 13 mortes, o maior número desde que os registros começaram. Especialistas associam esta invasão a uma colheita ruim de bolotas, causada em parte pelo ciclo interrompido de produção das árvores devido ao aumento das temperaturas, e a invernos mais quentes que perturbam a hibernação.

Em meio aos desafios, o Japão buscou se adaptar. O governo introduziu multas para empresas que não protegem seus funcionários do calor, escolas adotaram ônibus fretados e geladeiras para equipamentos de resfriamento, e até o tradicional torneio de beisebol escolar Koshien ajustou sua programação para evitar os horários mais quentes. Na agricultura, produtores em Shizuoka começaram a testar o cultivo de abacates, e pesquisadores desenvolveram um sistema para prever danos climáticos às frutas com semanas de antecedência, permitindo ações preventivas. Estas medidas de adaptação, tanto de longo quanto curto prazo, tornam-se cada vez mais vitais em um mundo onde os extremos climáticos são a nova norma.

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