Sucessão no Fed ocorre em cenário de pressão política e riscos econômicos complexos.

Fed sob Pressão: A Batalha pela Independência do Banco Central Americano

Em meio a desafios globais, a escolha do novo comando do Fed levanta questões sobre sua capacidade de atuar livre de influências políticas

A famosa frase do lendário jogador de hóquei Wayne Gretzky, “patine para onde o disco vai estar, não para onde ele esteve”, tornou-se um clichê corporativo sobre antecipar o futuro. No entanto, sua aplicação à maior autoridade monetária do mundo, o Federal Reserve (Fed) dos Estados Unidos, nunca foi tão complexa. A indicação do próximo presidente do banco central ocorre em um tabuleiro econômico repleto de desafios interligados: inflação teimosa, déficits fiscais em ascensão, um boom de investimentos em inteligência artificial, potenciais fragilidades financeiras e dúvidas sobre a primazia global do dólar. A grande questão que paira sobre a economia mundial é se o Fed terá a autonomia necessária para fazer o que precisa ser feito.

O alerta mais contundente sobre os riscos de se politizar o Fed veio de uma autoridade monetária de peso: Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu. Ela afirmou que uma possível perda de independência do Fed teria consequências graves não apenas para os Estados Unidos, mas para toda a economia global, dado o papel central que o país desempenha. As declarações foram uma resposta direta a medidas do ex-presidente Donald Trump para demitir membros do conselho do Fed, vistas como uma tentativa de controlar a instituição e pressionar por cortes de juros mais rápidos.

Esse cenário de pressão política ganha contornos concretos com a indicação de Stephen Miran, ex-presidente do Conselho de Assessores Econômicos da Casa Branca de Trump, para governador do Fed. Analistas veem a nomeação com preocupação, pois Miran já defendeu publicamente reformas que dariam ao presidente poder para demitir membros do conselho e presidentes de bancos regionais do Fed por qualquer motivo, politizando claramente a instituição. Historiadores econômicos lembram que a última vez em que um presidente americano exerceu forte pressão política sobre o Fed, na década de 1970, o resultado foi uma inflação descontrolada que assolou a economia por anos.

O desafio de manter a estabilidade de preços se torna hercúleo em um ambiente de gastos públicos expansionistas. A dívida pública global se aproxima perigosamente de 100% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, impulsionada por déficits fiscais persistentes em grandes economias. Nos Estados Unidos, a dívida federal projetada para 2050 chega a 145% do PIB. Níveis de endividamento dessa magnitude limitam a capacidade de resposta fiscal dos governos e aumentam a pressão sobre a política monetária.

Enquanto isso, a economia americana navega por ventos contraditórios. Por um lado, o investimento em inteligência artificial injetou um dinamismo considerável, sustentando o investimento das empresas e o consumo via efeito riqueza dos ganhos no mercado de ações. Por outro, a imposição de tarifas comerciais começa a se refletir nos preços ao consumidor, com 64% dos CEOs pesquisados planejando repassar esses custos. A inflação básica nos EUA deve permanecer acima da meta de 2% do Fed até o final de 2028.

Neste contexto delicado, qualquer movimento do Fed é minuciosamente escrutinado. Recentemente, o banco central sugeriu a possibilidade de desacelerar a redução de seu balanço patrimonial (o chamado *quantitative tightening*) caso o impasse sobre o teto da dívida americana se agrave. Alguns analistas interpretam o anúncio como um alerta velado sobre a diminuição da liquidez no sistema financeiro, mascarado por uma justificativa fiscal.

O mundo observa com apreensão. A independência do Fed foi um pilar da estabilidade financeira global nas últimas décadas. Se a nomeação de seu próximo líder for guiada por lealdade política em vez de mérito técnico, e se suas decisões forem tomadas com um olho no calendário eleitoral, as consequências podem se espalhar muito além das fronteiras americanas. O conselho de Walter Gretzky, pai de Wayne, sobre patinar para onde o disco vai estar, era, em suas próprias palavras, “apenas o básico, feito para crianças”. Gerenciar a economia global, no entanto, exige muito mais do que o básico; exige previsão, coragem e, acima de tudo, independência.

Acompanhe mais atualizações no Japão em Pauta.

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *