Vila japonesa de esqui aprova multas para combater excesso de turistas

Hakuba busca equilíbrio entre turismo e qualidade de vida com novas multas

Destino japonês de esqui lida com aumento massivo de visitantes e pressão sobre moradores

A vila de Hakuba, na província de Nagano, um dos destinos de esqui mais famosos do Japão, aprovou uma revisão de sua legislação local que passará a aplicar multas de até 50 mil ienes (cerca de 315 euros) a turistas que cometerem atos considerados disruptivos. A medida, que entra em vigor em 1º de julho de 2026, atualiza uma ordenança de “boas maneiras” de 2015 que antes não previa penalidades financeiras. A decisão é uma resposta direta ao rápido crescimento do número de visitantes após a pandemia e às crescentes queixas dos residentes sobre barulho, pichações e problemas de convivência.

O aumento do turismo em Hakuba é evidente nos números. Em 2024, a vila recebeu 2,71 milhões de visitantes, um salto significativo em relação aos cerca de 330 mil do ano anterior. Na temporada de inverno de 2024-2025, mais de 1,3 milhão de pessoas visitaram a região, com os turistas internacionais representando 46% dos frequentadores das estações de esqui locais. Este crescimento faz parte de uma tendência nacional: o Japão recebeu um recorde de aproximadamente 42,7 milhões de visitantes estrangeiros em 2025, com o governo estabelecendo uma meta ambiciosa de 60 milhões até 2030.

As novas regras definem oito categorias específicas de violações sujeitas a multa. Entre elas estão fazer pichações ou colar adesivos em propriedades públicas ou privadas, produzir barulho excessivo (acima de 45 decibéis) após as 22h, soltar fogos de artifício à noite, esquiar ou praticar snowboard em vias públicas, e consumir bebidas alcoólicas ou fumar enquanto caminha pelas ruas. Em geral, as multas serão aplicadas se o infrator se recusar a cumprir uma ordem para interromper a conduta, mas atos como esquiar na rua ou dirigir de forma perigosa no inverno podem ser penalizados imediatamente por representarem risco ao público.

Para o prefeito de Hakuba, Toshiro Maruyama, o objetivo é criar um ambiente onde tanto os residentes quanto os visitantes possam aproveitar o local com conforto. A medida coloca Hakuba entre um grupo de cerca de 20 municípios japoneses que possuem ordenanças similares, sendo que apenas seis deles, incluindo Kyoto e Fukuoka, impõem penalidades por descumprimento. O desafio de equilibrar os benefícios econômicos do turismo com o bem-estar da comunidade e a preservação do patrimônio local é uma questão urgente em todo o país.

Além dos problemas de convivência, o boom turístico trouxe outras consequências para Hakuba. O valor dos terrenos à beira da estrada no distrito de Wadano disparou 32,4% em um ano, o maior aumento em todo o Japão, refletindo uma onda de investimentos estrangeiros e pressão imobiliária. Moradores relatam que os preços em restaurantes subiram e que há uma escassez de táxis, com tarifas em alta. A transformação também é cultural: placas em inglês dominam as fachadas das lojas, e muitos estabelecimentos priorizam o atendimento em língua estrangeira.

O contexto nacional ajuda a explicar a dependência de Hakuba pelo turista internacional. O número de esquiadores e praticantes de snowboard no Japão caiu drasticamente, de 18,6 milhões em 1993 para apenas 4,6 milhões em 2023. Muitas estações de esqui em regiões menos conectadas enfrentam dificuldades financeiras e risco de fechamento, enquanto destinos como Hakuba e Niseko, em Hokkaido, prosperam ao atrair visitantes do exterior. A vila se consolidou como um hub internacional, especialmente popular entre australianos, atraídos pela neve em pó de alta qualidade, conhecida como “Japow”.

Especialistas e empresários locais veem a necessidade de um modelo de turismo mais sustentável. Há um esforço para promover a vila como um destino para todas as estações, reduzindo a concentração extrema no inverno. A prefeitura também planeja introduzir um imposto de hospedagem em junho, cuja receita será usada para melhorar o transporte público, gerenciar resíduos e expandir informações multilíngues sobre desastres. O grande dilema, que se repete em comunidades turísticas por todo o Japão, é como aproveitar os benefícios econômicos do turismo sem permitir que ele sobrecarregue a identidade e a vida diária do local que busca sustentar.

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